Por esses dias de barbárie e fraturas expostas o branco me assaltou. Atraso de textos, relógios lentos, assuntos que não rendem crônica, poema, nem um conto de réis. Amontoado de tédio que não me deixa escrever. E por que escrevo? Era mais ou menos o que o Joaquim Pedro de Andrade respondeu ao Liberácion, décadas atrás, o que eu queria ter sempre na ponta da língua. “Para chatear os imbecis”. Mas quem são eles?
Não quero escrever sobre a justiça, a paz na Terra e aos homens de boa vontade. Não temos nenhuma, é bem verdade. Somos só esse arranjado de solidariedade misturada com hipocrisia. Florzinha no MSN, passeata de branco e os pretos fodidos agüentando a ôia da Força de Segurança Nacional que não sabe a que veio. Ou melhor, foi ao Rio de vocês aí, que me lêem.
Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos livros, discos e abriria até uma exceção por um filme. Truffaut, Jules et Jim. Mas parece que o amargo do alho que queimou um pouco no jantar de ontem contaminou meus olhos de paixão por Jeanne Moreau. Será que ela é só uma menininha mimada e não uma mulher que resume no amor que sente a vida e morte?
No meio da tanta coisa repetitiva - afinal o caos impera há tempos e vamos todos aos solavancos, nessa epilepsia social que vez por outra desperta meio mundo para sentir o fedor que não dá descanso embaixo dos nossos narizes – vem lá de Severínia, interior de São Paulo, cidade que pelo nome não se perca, a única coisa digna de nota.
Tava com um cara que carimba postais, que por cansaço enterrou uma carta de amor. Além da carta, faturas e mais faturas de cartões de crédito, contas de água, luz, telefone, o escambau. Deu na Folha de São Paulo, bem pequenininha uma nota, do tamanho de um selo, selo de carta. O pobre Diose Ferreira da Costa, recém-contratado pelos Correios não agüentou o tranco.
Alegando cansaço – e meu Deus, que coisa mais justa – confessou não ter condições de cumprir a meta diária de entrega de cartas, das coisas invioláveis, dos telegramas burocráticos e das cartas de amor, insisto, há no mundo ainda quem as mande na era dos e-mails? Enterrava-as todas, num terreno baldio, mais de quinhentas. No quintal de casa umas três mil.
A mulher da rua de frente reclamou dos juros exorbitantes do cartão de crédito, pago com atraso por causa do cansaço do carteiro. E lá vieram dez carteiros das cidades vizinhas para a longínqua Severínia, repartir as coisas todas que se perderam no suor do pobre Diose.
Mas eu queria estar em Severínia e não ter recebido uma carta sequer, a Veja do domingo com a desgraça da vida na capa, a conta de luz e ficar no escuro depois de cortada, o telefone, mudo, sem água e ter que buscar e pedir na vizinha. Tudo assim. Longe do mundo, nos restos do carnaval que nem aconteceu ainda. Só para descobrir que imbecis eu tenho que chatear.
Ainda penso com o desenho da letra. Por isso a cada novo lugar, é sempre um correio que primeiro procuro para começar a fazer parte dali.
Ando sempre em busca de um remetente. Sempre.
Mas viva Diose Ferreira da Costa, que com sua abordagem cansada da vida, se fez maior do que qualquer urgência. Os juros, da conta de luz ou de amor, voltam para nos chatear pelos dias, pelos blogs e pelos jornais.
Parabéns, Rodrigo Levino. Todo texto começa mesmo pelo branco.