Clique aqui para entrar na Página Principal do Portal
Veja os sites do Portal
Conheça nossos parceiros
topo
Cold, bem cold... | 08 de março de 2007

George Soros coisa nenhuma. Alan Greenspan muito menos. Maryl Linch, risco-país, bolsas e loucos atômicos iranianos. Nada disso move o mundo. Essa bola azul bombardeada todos os dias pelo caos da nossa modernidade move-se mesmo é pelo amor. Ou pela falta dele. E isso tudo precisa, claro, como todo roteiro de história inconfessável – embora cheia de clichês, que são os nossos amores – de uma trilha sonora.

Rob Fleming percebeu a queda da maçã quando indagou no distante e sempre querido High Fidelity (Nick Hornby): “O que veio primeiro? A música ou a dor de cotovelo?” No fim das contas, é basicamente para isso que colamos os nossos ouvidos num radinho de pilha: amor. Algo que nos remeta a níveis diabéticos de tanto açúcar.

É isto, em última análise, que mantém no topo das paradas bandas como o Coldplay, por exemplo. Eu que já estive no time dos fãs, hoje mantenho uma postura distante, na encruzilhada entre o céu e o inferno da crítica musical, colando os ouvidos com mais cautela no radinho que já nem canta tanto amor assim. Mas afinal, no que se transformou o Coldplay?

Em tese, a banda que esteve recentemente no país e causou furor (tanto nos que amam, quanto nos que odeiam, e muito mais nos lisos que não tiveram grana para o caríssimo ingresso), deveria ter avançado um pouco mais em suas produções, arriscado, não necessariamente como uma guinada tantas vezes vistas na história do rock. Mas não o fez, sequer o mínimo.

Elementos de sustentação para o risco não faltam. O séquito de fãs; o carisma de um band leader não tão chato e messiânico quanto Bono Vox; o vácuo deixado por bandas médias que não conseguem firmar-se na onda do hype e sucumbem no segundo disco seriam apenas alguns motivos para jogar-se.

O que se vê e ouve, principalmente, são pés atrás demais, posturas tão retas que beiram a hipocrisia. A feição de menino doce e cheio de princípios que apesar de rico, famoso e invejado não gosta do showbusiness e quer fazer algo para mudar o mundo, não colou nem nos despedaçados grunges. Não colaria num britânico casado com uma estrela hollywoodiana e que canta “olhe para as estrelas, elas brilham por você”.

A consequência disso tudo se divide em duas análises possíveis: a do público e a da crítica. Do ponto de vista do público a banda continua muitíssimo bem, obrigado. Lotando estádios e arrastando atrás do pianinho doce e das guitarras limpas gente que não faz idéia de como era bom ouvir “Parachutes” sozinho num quarto escuro.

Agora não dá mais. O esquema é outro. Grande e abrangente no pior sentido da palavra. O público é o de qualquer curralzinho VIP de festa bacana, sem precisar entender direito o contexto onde surgiu a banda. O negócio é levantar os braços, acender o isqueiro e cantar junto: “olhe para as estrelas, elas brilham por você”.

Desde “A Rush Of Blood To The Head” – agora falando do ponto de vista da crítica – o Coldplay, apesar de mais seguro de si nas execuções das músicas e com arranjos na medida do possível mais elaborados, caiu na armadilha do jogo fácil e previsível. “X&Y” confirmou a regra. É fraco, apesar de bem trabalhado.

Ao invés de adentrar o vácuo deixado pelo hype que não dura até a próxima edição da NME e é inconsistente em forma e conteúdo, a banda preferiu a lacuna deixada por milhares de pessoas que clamam desde The Bends, do Radiohead, por músicas e melodias como “High and Dry” e “Fake Plastic Tree”.

É o amor. O amor que não absorveu de cara a evolução do Ok Computer para o Kid A e preferiu colar os ouvidos num radinho que tocasse “Spies”, Don’t Panic” e “Speed of Sound”. Eles cumpriram bem a receita, não arriscaram a pele, muito menos as faixas dos discos por nada que fosse além de amor rimando com dor.

Poderiam te-lo feito? Sim. Não como um dever, mas como retrato de uma evolução necessária na música pop, que, iniciada por um grupo (no caso o Radiohead) e seguindo uma tese política quase trotskista, espalharia seus tentáculos por todo o pop, encabeçado por quem tem os motivos que sustentariam uma guinada, listados acima.

Talvez seja apenas essa a explicação, do ponto de vista crítico, para a melosidade insistente do Coldplay: ele parou em The Bends e no Ok Computer, não evoluiu para o seu Kid A. Mas isso é uma tese. No fim das contas, a explicação palpável e inconteste, quem dá é o público, que canta “In My Place” com cantaria “Karma Police” e “No Surprise”, sem prestar muita atenção, levantando os braços para cima, acendendo os isqueiros...

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
p.a. em 10 de março de 2007

bom texto, crítica realmente válida para a banda...
hum, impressoes nordestina do mundo? pq?
p.a.


ARQUIVO DA COLUNA
seta 15 de março de 2007 | Duas meninas
seta 08 de março de 2007 | Cold, bem cold...
seta 01 de março de 2007 | O animal agoniza em praça pública
seta 22 de fevereiro de 2007 | Das cinzas
seta 15 de fevereiro de 2007 | Para chatear os imbecis
seta 08 de fevereiro de 2007 | Já era!
seta 31 de janeiro de 2007 | Ideologia: eu quero uma pra morrer
seta 18 de janeiro de 2007 | O limbo das curas
seta 10 de janeiro de 2007 | Como estava
seta 03 de janeiro de 2007 | Little Fish
seta 14 de dezembro de 2006 | Waiting for You
seta 07 de dezembro de 2006 | Yankees, go home!
seta 30 de novembro de 2006 | O medo da fila
seta 27 de novembro de 2006 | Do som nascem as palavras.
seta 19 de novembro de 2006 | Feliz ano novo!
seta 11 de novembro de 2006 | Todos iguais, todinhos!
seta 03 de novembro de 2006 | Freio de arrumação
seta 26 de outubro de 2006 | Cinema, Aspirinas e Urubus.
seta 18 de outubro de 2006 | ...ergue e destrói coisas belas.
seta 10 de outubro de 2006 | Tudo de bom
seta 27 de setembro de 2006 | Eu sou um condomínio
seta 20 de setembro de 2006 | Finas ironias
seta 13 de setembro de 2006 | Interconexões artísticas
seta 06 de setembro de 2006 | Você precisa de Bob Dylan
seta 28 de agosto de 2006 | Além da conta
seta 22 de agosto de 2006 | Forward
seta 17 de agosto de 2006 | Delicadeza Islâmica
seta 09 de agosto de 2006 | O rock existe para que a verdade não nos destrua
seta 02 de agosto de 2006 | Independentes ou morte!
seta 25 de julho de 2006 | Vou te contar...
seta 17 de julho de 2006 | Como água
seta 10 de julho de 2006 | O Surto
seta 04 de julho de 2006 | Bobby Gillespie
seta 26 de junho de 2006 | No mundo das crenças
seta 20 de junho de 2006 | Todos os dias
seta 12 de junho de 2006 | Igual ao Nosso
© 2006 Casa da Matriz Produções Ltda | Todos os direitos reservados | Todas as mensagens enviadas pelos visitantes do site são de responsabilidade dos mesmos
Todos os preços estão sujeitos a alterações sem aviso prévio