George Soros coisa nenhuma. Alan Greenspan muito menos. Maryl Linch, risco-país, bolsas e loucos atômicos iranianos. Nada disso move o mundo. Essa bola azul bombardeada todos os dias pelo caos da nossa modernidade move-se mesmo é pelo amor. Ou pela falta dele. E isso tudo precisa, claro, como todo roteiro de história inconfessável – embora cheia de clichês, que são os nossos amores – de uma trilha sonora.
Rob Fleming percebeu a queda da maçã quando indagou no distante e sempre querido High Fidelity (Nick Hornby): “O que veio primeiro? A música ou a dor de cotovelo?” No fim das contas, é basicamente para isso que colamos os nossos ouvidos num radinho de pilha: amor. Algo que nos remeta a níveis diabéticos de tanto açúcar.
É isto, em última análise, que mantém no topo das paradas bandas como o Coldplay, por exemplo. Eu que já estive no time dos fãs, hoje mantenho uma postura distante, na encruzilhada entre o céu e o inferno da crítica musical, colando os ouvidos com mais cautela no radinho que já nem canta tanto amor assim. Mas afinal, no que se transformou o Coldplay?
Em tese, a banda que esteve recentemente no país e causou furor (tanto nos que amam, quanto nos que odeiam, e muito mais nos lisos que não tiveram grana para o caríssimo ingresso), deveria ter avançado um pouco mais em suas produções, arriscado, não necessariamente como uma guinada tantas vezes vistas na história do rock. Mas não o fez, sequer o mínimo.
Elementos de sustentação para o risco não faltam. O séquito de fãs; o carisma de um band leader não tão chato e messiânico quanto Bono Vox; o vácuo deixado por bandas médias que não conseguem firmar-se na onda do hype e sucumbem no segundo disco seriam apenas alguns motivos para jogar-se.
O que se vê e ouve, principalmente, são pés atrás demais, posturas tão retas que beiram a hipocrisia. A feição de menino doce e cheio de princípios que apesar de rico, famoso e invejado não gosta do showbusiness e quer fazer algo para mudar o mundo, não colou nem nos despedaçados grunges. Não colaria num britânico casado com uma estrela hollywoodiana e que canta “olhe para as estrelas, elas brilham por você”.
A consequência disso tudo se divide em duas análises possíveis: a do público e a da crítica. Do ponto de vista do público a banda continua muitíssimo bem, obrigado. Lotando estádios e arrastando atrás do pianinho doce e das guitarras limpas gente que não faz idéia de como era bom ouvir “Parachutes” sozinho num quarto escuro.
Agora não dá mais. O esquema é outro. Grande e abrangente no pior sentido da palavra. O público é o de qualquer curralzinho VIP de festa bacana, sem precisar entender direito o contexto onde surgiu a banda. O negócio é levantar os braços, acender o isqueiro e cantar junto: “olhe para as estrelas, elas brilham por você”.
Desde “A Rush Of Blood To The Head” – agora falando do ponto de vista da crítica – o Coldplay, apesar de mais seguro de si nas execuções das músicas e com arranjos na medida do possível mais elaborados, caiu na armadilha do jogo fácil e previsível. “X&Y” confirmou a regra. É fraco, apesar de bem trabalhado.
Ao invés de adentrar o vácuo deixado pelo hype que não dura até a próxima edição da NME e é inconsistente em forma e conteúdo, a banda preferiu a lacuna deixada por milhares de pessoas que clamam desde The Bends, do Radiohead, por músicas e melodias como “High and Dry” e “Fake Plastic Tree”.
É o amor. O amor que não absorveu de cara a evolução do Ok Computer para o Kid A e preferiu colar os ouvidos num radinho que tocasse “Spies”, Don’t Panic” e “Speed of Sound”. Eles cumpriram bem a receita, não arriscaram a pele, muito menos as faixas dos discos por nada que fosse além de amor rimando com dor.
Poderiam te-lo feito? Sim. Não como um dever, mas como retrato de uma evolução necessária na música pop, que, iniciada por um grupo (no caso o Radiohead) e seguindo uma tese política quase trotskista, espalharia seus tentáculos por todo o pop, encabeçado por quem tem os motivos que sustentariam uma guinada, listados acima.
Talvez seja apenas essa a explicação, do ponto de vista crítico, para a melosidade insistente do Coldplay: ele parou em The Bends e no Ok Computer, não evoluiu para o seu Kid A. Mas isso é uma tese. No fim das contas, a explicação palpável e inconteste, quem dá é o público, que canta “In My Place” com cantaria “Karma Police” e “No Surprise”, sem prestar muita atenção, levantando os braços para cima, acendendo os isqueiros...
bom texto, crítica realmente válida para a banda...
hum, impressoes nordestina do mundo? pq?
p.a.