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Duas meninas | 15 de março de 2007

- Menina, sai do meio do tempo, que lá vem chuva!

Na estrada de chão batido e seco, por onde deslizavam os pneus rangentes da bicicleta, ela esvoaçava os cabelos e o vestido de estampas discretas. Correndo no meio do tempo, antes que as pesadas gotas de água se derramassem céu abaixo. A voz que chamava era guia, linha de pipa que levava até a porta do casarão.

Nos leves traços de fidalguia que carregava nos dedos, o cuidado de não deixar espatifar no chão os punhados de liberdade, encontrados a muito custo nas ribanceiras que desnudam o rio. Atende à voz que chama, entrando em casa apressada, como os olhos cheios de urgência. Os punhados pedem o segredo de um canto nas sombras.

- Já saí mãe, do meio do tempo!

O tempo era um amontoado de poeira, um caminho longe que vai dar não sei onde, uma coisa sem portas nem janelas. O tempo eram as nuvens fechando o céu, o vento contorcendo as roupas no varal. O tempo era onde a menina colhia punhados de liberdade que precisavam de um lugar à sombra para esconder-se dos olhos maduros de quem carrega fardos de desilusão.

Nas frestas do chão um ninho. O intangível, mesmo que sem forma definida, sendo despejado levemente, caindo dos bolsos, levado por uma delicada mão. Um lugar à sombra, um segredo a mais. A voz guia atravessando a casa para fechar a janela do quarto. Chove.

Acomoda-se num canto da sala, os pés descalços, tensos, ralando no chão áspero até quase sangrar. É que liberdade fere a alma, leva o rumo, nos deixa sem saber muito que fazer a não ser ralar a pele e deixar que a chuva passe, até que estejamos novamente no meio do tempo e tenhamos algo mais a ser escondido entre as sombras.

***

Jeff Buckley, Grace. Os pés encharcados. Chove. Atravessa a rua apressada procurando uma marquise. Nos ouvidos a mesma música, desde cedo. Os dedos engelhados não disfarçam o frio. Falta pouco para cobrir-se com a solidão da casa vazia.

E quando o faz, despe-se ao longo do corredor, até acomodar-se num canto do quarto. Nos bolsos os compromissos que consomem o tempo. O tempo, esse amontoado de coisas urgentes e mal cicatrizadas, esmagando a liberdade que escorre pelos bueiros, junto com a chuva.

Rala os pés no carpete áspero. Entre folhas destacando poemas doces e músicas que se repetem horas seguidas, a tensão de estar perdida, sem saber, agora que colheu tanta liberdade, o que fazer até que a chuva passe.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Chr!sk em 16 de março de 2007

.:continuo no meio do tempo, de um tempo que não tem meio:.


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