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O animal agoniza em praça pública | 01 de março de 2007

Chove por aqui. Não tenho certeza se é apenas o tédio que costuma pregar-se às carregadas nuvens, que mais parecem balões negros suspensos no céu, mas a cada cinco minutos desacredito o que ouço. “Everybody wants to rules the world”, Tears for Fears. Será mesmo?

Aos poucos vou montando pequenas muletas, reforçando as encostas com inveja sadia de quem poderia, com muito mais motivos do que eu, seguir adiante no piloto automático, mas não se deu ao luxo covarde de entregar os pontos. Deixou pelo menos que a rotina não amainasse as ambições, que na real, nem precisam ser tantas, bastam ser justas comigo mesmo.

Se não for possível dominar o mundo – convenhamos, percebo que minha coluna (vertebral mesmo) já nem permite esforços deste naipe – manter-se vivo buscando fazer o que gosta já está valendo. A música então se torna apenas um item decorativo na tarde fria e vejam só, Philip Roth está vivo. Mais um reforço nas muletas.

Roth aliás, segundo David Remnick, em “Dentro da Floresta”, que escreve seus livros de pé por causa de dores na coluna. Ainda não cheguei lá. Mas acho que a minha coluna tende a aproximar-se mais dele do que a escrita com o passar dos anos.

Mas enfim, isso tudo é para dizer que, por Alá, o meu quarto de século aproxima-se e começo a suar frio desde já. Lá está Roth, três livros atrás em “O Animal Agonizante” dizendo que “por motivos óbvios, é impossível imaginar uma etapa da vida posterior àquela em que estamos. Às vezes já chegamos na metade da fase seguinte quando nos damos conta de que estamos nela.”

É isso. É basicamente isso. Não ter a certeza de que as carregadas nuvens serão dissipadas com fortes ventos que deixarão a casa livre do calor ou se vai cair um pé d’água capaz de levar calor, telhado, paredes e móveis da casa. Essa casa ainda em construção: eu. Eu que já posso estar com água no pescoço e nem percebi ainda. Ou começo a fazê-lo agora?

Lamúrias de divã a três por quatro, mas eu avisei desde o início que isto aqui iria se tornar um bom terapeuta 0800. Então não reclamem. Para não ficar tão chato assim, de repente funciona como uma dica de leitura para os seus próximos dias: Roth.

De qualquer forma, tudo parecia simples de resolver, como uma punheta rápida enquanto se cheira atrás da porta do banheiro da casa da avó, a calcinha da prima mais gostosa, como em “Complexo de Portnoy”, Roth. Hoje, dependendo do estresse do dia, não sobra tempo nem para as punhetas. E as primas, bem, as primas já estão todas casadas e donas de suas casas. Decadentes, por assim dizer.

No fim das contas, enquanto esse céu não abre (ou eu não chego em casa ensopado por mais um banho de chuva na rua), agarro-me aos pequenos delitos que me dão lá algum prazer, como escrever essa crônica em pleno expediente.

Pensar, quem sabe, que posso nem escrever tão bem quanto o Roth daqui a décadas, e continuar sendo apenas um mimético de seus personagens mais neuróticos, mas dizer aos netos que o escritor que eu mais amo nesse mundo tinha o mesmo problema de coluna que eu.

É, tornar – ou pelo menos tentar – as coisas simples assim, como uma punheta atrás da porta enquanto a culpa não vem. Estou ficando velho, mas talvez só perceba quando já estiver na metade da fase. Igualzinho a um personagem de Roth.

seta Rodrigo Levino

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