- Assistiu “A Rainha”?
- Sim. Você fez mais do que isso.
- Como assim?
- Apenas uma relação midiática. Filmaço.
- Mas no fundo é isso mesmo: um grande teatro midiático. A rainha foi vítima do espetáculo que ela, mesmo como instituição, sempre encenou. Lembrei, por exemplo, de Umberto Eco, analisando o cortejo do casamento de Diana e Charles. Uma análise midiática.
- Você sabe alguma coisa sobre a reação da rainha ao filme?
- Gostou bastante. Convidou, inclusive, Hellen Mirren para tomar chá. Hellen por sua vez, dedicou o Oscar de Melhor Atriz a ela.
- Há falas bem pesadas no filme. A mulher de Blair, o marido da rainha – que não é rei – e do próprio príncipe Charles. Falas que vão além do conceito. Eu diria que preconceitos institucionais e até mesmo pessoais.
- Sim, mas com um toque de realidade assustador. O diretor havia produzido antes do filme, uma série para a TV inglesa nos mesmos moldes. Eu chamaria o filme de cine-documentário, as doses de realidade são assustadoras e escancaradas.
- Além do mais, a hostilidade é bilateral. Basta lembrar o que pensavam a rainha-mãe e o marido da rainha, sobre Blair e seus projetos de modernização.
- Pois é.
- Como o público britânico reagiu?
- O público absorveu o filme como um registro histórico que fez justiça à rainha. Ali, ela pôde até certo ponto, justificar as decisões da época.
- O Blair mostra-se manipulado pelo assessor e ao mesmo tempo deslumbrado com a realeza.
- O assessor era um monstro político, um Rasputin inglês. Bom de texto e de argumentação, mas insensível, sem o toque humano. Nesse ponto ele errou e Blair redime-se quando assume a condição de súdito e compreende o dilema da rainha.
- Você não acha que o papel de paspalhão acabou nas mãos de Charles? Sempre na “barra da saia” da mãe, discordando, mas sem argumentação suficiente para se impor.
- Pelo contrário. Ele é a própria síntese do pensamento de Blair e a antítese do pensamento da família real.
- Sim, concordo, mas do ponto de vista argumentativo e até carismático, ele não consegue se impor, preso que está a própria instituição do qual faz parte.
- Charles era cerebral, humano e de certo modo questionador da instituição, ao criar condições e situações de mudanças. Paspalhão é o pai dele.
- Sim, mas ainda sem habilidade para imprimir o pensamento dentro da própria casa, mesmo levando-se em consideração as amarras cerimoniais da realeza. O pai é mesmo ridículo, porta-se como um empregado da esposa.
- As falas de Charles se encaixam perfeitamente na realidade. Não há falhas, são contidas e certeiras.
- Nesse ponto o diretor foi bastante cuidadoso. Como sempre é. Dirigiu antes disso o filme que mais marcou a minha vida: Alta Fidelidade.
- Sim, grande filme.
- Aquela fala de Blair sobre o verão, a semana, as poucas horas em que ocorrem tantas coisas, como sendo um átomo se comparados ao período do reinado é digna do maior e melhor dos súditos.
- Ele rende-se por completo. De certa maneira, o filme é redentor para ambas as partes. A rainha se redime quando explicita a inabilidade em lidar com a tensão dos princípios a que está submetida e o apelo popular que ela desconhece. Blair se redime quando se reconhece súdito e assume tal postura.
- O filme reafirma as virtudes históricas dos princípios da realeza e coloca como episódicos os seus erros.
- Sim, as falas da rainha mãe confirmam isso. O modo como ela defende as atitudes reais e ao mesmo tempo remete-as a fatos históricos, justificam a posição, até certo ponto, tomada naquele momento.
- Por mais que você discorde da austeridade, a rainha representa ali uma instituição de mil anos, o que já incapacita uma tomada de posição contrária que se baseie no espetáculo.
- A cena em que a criança oferece flores à rainha é de levar às lagrimas. Duvido que tenha ocorrido, naquele momento e naquelas circunstâncias.
- Eu chamaria isso de licença poética do diretor. Jogou para a platéia.
- Caso fosse verdade, somente aquele gesto seria o suficiente para neutralizar e interromper todo um clima de hostilidade que as manchetes dos jornais e as frases passavam para os expectadores do filme.
- Um charme do diretor, nesse ponto, como em alguns outros, ele seduz a platéia.
- Como na seqüência em que ela atende ao telefone na cozinha, como quem pede um favor aos serviçais. Ou se preocupando com um animal abatido, tendo a vida toda participado de mais de uma centena de caçadas e provavelmente abatido mais de uma dezena de cervos. O carro quebrando tudo bem, mas é improvável que ela saia sem um telefone e precise retornar à cozinha para atendê-lo. Lembre-se de quando o carro quebrou, ela usava um celular. Até mesmo o seu marido, usou um no campo, quando retornava da caçada.
- A seqüência da cozinha penso ser convincente da forma como foi posta. A própria formação austera da rainha, criada na guerra e em condições em determinados pontos de sua vida próxima da realidade menos abastada, torna-a de alguma forma próxima dos serviçais, que devem acompanhá-la há décadas. Desde o início do filme não um só destrate aos serviçais.
- Quanto ao choro pelo animal, compreendi como sendo lágrimas de uma mínima devoção ao único ser vivo que acompanhou o seu momento de maior solidão, o único em que ela chora copiosamente em meio a crise. Só o cervo foi testemunha.
- Ou uma metáfora da morte de um indefeso.
- Não descarto essa hipótese. Iria até além: enxergou no animal a própria fraqueza dela?
- Ela pode transferir para o bicho a dor que não sentiu por Diana... ou mesmo ter sentido naquele momento, mais a morte do animal.
- Não por ela, agora entramos no mérito do diretor. O choro pelo animal, por incrível que pareça, recoloca a rainha no campo dos humanos.
- Faz algum sentido. Ali se conclui o processo de humanização que se perde no início do filme.
- Nós emprestamos a rainha os nossos sentimentos, projetamos psicologicamente uma mensagem que tem como resposta a lágrima que ela cavilosamente enxuga com a luva.
- Assim nos valorizamos à medida que valorizamos o gesto dela. Afinal, era aquilo que nós queríamos: uma lágrima sincera. No caso, aconteceu pelo animal. Quando ela chora sozinha, chora muito mais pela pressão e inabilidade do que pela morte de Diana.
- Aquela frase da esposa de Blair perguntando se ele “iria ver a namorada” é ridícula, mas cumpre bem a função de iconoclastia. A frase faz a platéia rir com prazer. Torna-a semelhante a uma personagem de seriados americanos, tipo “Friends”.
- É um grande filme, sem dúvida. Hollywood começa a sair do “ordinary people” e adentra na ficção análoga à realidade, fundindo as duas coisas.
- Pode ser o início de um novo processo de renascimento, como em 70, com Coppola, Kubrick, Scorcese.
- Há sinais. Desde Crash, além da ascensão dos mexicanos, revisitando as teses da Estética da Fome, sem o radicalismo de Lars Von Trier e seu Dogma, e os poucos recursos do Cinema Novo. Agora conectados à globalização, muito embora ainda aflitivos e católicos em demasia.
- Mas isso é outra conversa. Aceita uma cerveja?
- Só se for inglesa...
Quando o filme acabou fiquei querendo mais. Fazia tempo que isso não me acontecia. Adoro Helen Mirren. Alí estava Elisabeth II , tão diferente da mesma atriz em Elisabeth I, a série de TV, que também é ótima.
Amei a cena do café da manhã em família, como se fosse qq família, até a rainha pergunta à criada se o Prícipe de Gales já havia acordado. Tão comum e tão "real".
Não sou cinéfila, sou consumidora de entretenimento, por isso um comentário tão pueril.
Valeu, Rodrigo!
Abraço
Veca
Crash é um filminho de merda, Levino! E dos mais merdas!