A tradição do sacrifício com o objetivo de expiar pecados e culpas de um quinhão da sociedade, parece ter atravessado os séculos intacta. Numa espécie de up grade cruel da expiação dos cordeiros oferecidos a Javé, aos bois mortos em loas a Júpiter, chegamos ao século XXI com os mesmos meios de tentar livrar-se da responsabilidade coletiva sobre as desgraças das quais somos partícipes.
Fora os traços de psicopatia do coreano Cho Seung-hui, protagonista da carnificina na universidade de Virginia Tech e abaixo da camada de ódio que se lança contra um matador de jovens e professores brilhantes, engendra-se uma culpa que é de todos e deságua, infelizmente, em atos extremos que servem para apontar as chagas da sociedade superficial que ajudamos a construir todos os dias.
Responsabilizar o chamado “american way of life”, parece muito mais fetiche de esquerdista latino-americano do que razão segura para explicar o fato. Não são raros os dias em que sentados na nossa poltrona, o cabelo carregado de laquê da Fátima Bernardes compõe o anúncio de dezenas de mortes, seja nas favelas do Rio de Janeiro, ou nalgum assentamento no Pará.
Mas está tudo em casa, pobre matando pobre e sem o fantasma da competição capitalista americana, até nos sentimos confortáveis e mais seguros, quando na verdade o cenário é ágil, e só: trocam-se cadeiras e laboratórios bem equipados e ricos, por barracos, drogas e fuzis. O “brazilian way of life” parece nos chocar menos. Por quê?
Num outro vértice deste polígono social complexo, a beligerância de uma sociedade historicamente defensora das armas seria a explicação. Meia verdade. É bem provável que se cada estudante da universidade portasse uma arma, o número de mortos por Cho poderia ser bem menor, crivado que seria por balas dos seus colegas, defendendo-se do ataque. É uma hipótese que não deve ser desconsiderada.
Exclusão social de um filho de imigrantes? Mentira. Cursando uma das melhores faculdades do país (assim como sua irmã, uma brilhante aluna de Princeton), Cho era fruto da integração americana que ao longo do último século acolheu os melhores pesquisadores, estudantes, professores e intelectuais do mundo todo para as suas universidades, e não negou aos alunos e a suas famílias, a chance de ascensão social.
Vê-se, portanto, que a sociedade americana padece dos mesmos males de qualquer outra com quase 400 milhões de habitantes, vítima de suas maiores virtudes: liberdade de ir, vir, informa-se, de não deixar tudo embaixo dos panos, de transmitir ao vivo o que a China, queridinha da esquerda delirante, esconde debaixo do capitalismo sustentado por escravidão e censura. Há a mesma sujeira embaixo dos tapetes pelo mundo afora, a diferença é que a americana, assistimos via satélite, parece-nos então mais purulenta.
O último aspecto, diz respeito a um fato social tão antigo quanto o sacrifício que expia pecados: o rito de passagem. A sociedade cobra dos seus indivíduos – e isso não é uma invenção contemporânea – uma série de códigos de conduta e linguagem, deixando os que não se adaptam, à margem das relações interpessoais. É aí que nasce a explicação esdrúxula aceita por alguns, de que Cho dava pistas desde sempre do matador que seria, por causa do seu silêncio, da sua postura taciturna.
Ora, na era das fast celebrities, não parece aceitável para a maioria que alguém não disponha de um sorriso afável e falso, se desdobrando na comunicação globalizada, ampla, irrestrita para adaptar-se aos códigos exigidos pela maioria. É como se o silêncio fosse, nesse caso, um pecado, e escondesse nas suas entranhas um desejo de morte.
Esquecemos de imediato dos que matam aos gritos, culpamos em seguida por todos os males de uma sociedade alguém que antes de alvejar suas vítimas as cumprimentou, num gesto raro na própria conduta, com um “oi, como vai?”. O silêncio, preferível ao que nada tem a dizer e o faz apenas por conveniência, figura de imediato como pista de um crime. Quanta hipocrisia.
Cho, que parece não ter se adaptado a tantos códigos, realizou por último dois atos que o igualou a maioria dos que hoje o apedrejam, ironicamente: cumprimentou efusivamente as suas vítimas e deixou o seu protesto insano registrado em vídeo. Ora pois, uma fast celebritie, como a maioria dos de sua idade querem ser. Sendo assim, as razões que levaram Cho ao ato injustificável, estão tão intrinsecamente ligadas ao meio em que ele se movia, que quase se confundem. O que de certa maneira dificulta a auto-reflexão.
Um reality show sangrento, alvo ideal para esquecermos que, no momento mais irracional dos seus vinte e poucos anos é que ele conseguiu ser próximo e adaptado a sociedade que tanto maldiz nas últimas palavras: gentil (mesmo que falsamente) e celebridade (mesmo que por 15 minutos).
Um animal imolado com toda a nossa culpa, carregando consigo o ódio a uma sociedade comumente apedrejada pelo simples fato de ser americana, e que morto, nos traz a sensação de revolta rasa pelo que está longe, enquanto na nossa sala Fátima Bernardes anuncia dezenas de mortes todos os dias e parecemos não nos chocar, afinal, estamos num paraíso tropical. A nossa revolta Cho já carrega com sua tragédia, para que exatamente preocupar-se com o redor? Quanta hipocrisia, quanto sacrifício por nada.
Preciso de tempo pra limpar o sangue aqui. "Cho" é "cabra macho" ou "gay" demais para esse mundo!