Clique aqui para entrar na Página Principal do Portal
Veja os sites do Portal
Conheça nossos parceiros
topo
Feira Moderna | 10 de abril de 2007

Como se o cheiro fosse uma manufatura, dessas feitas com mãos cuidadosas, lentas como pede o capricho. Demorando um tempo que não cabia em si de tão longo até tomar toda a casa, os cantos e saltar pelas janelas invadindo o quintal. O cheiro dos biscoitos maturados no fogão à lenha, da minha avó.

O tempo, naquela época do ano em que eu me debandava para a fazenda, não era contado com ponteiros. Era o sol nascendo, alguém abrindo a porteira como fazia todos os dias naquela hora, era o sol alto no pingo do meio dia, depois morrendo e sendo noite. Era o tempo que o cheiro dos biscoitos levava aguçando o paladar até que estivessem postos à mesa.

Na minha parca noção de tempo e espaço, era mais fácil dividir o tempo assim. Parecia indolor, sem agonia. E era. Por mais repetitivas que fossem as atividades, talvez pelo fato de não virem acompanhadas de preocupação alguma, passavam ao largo do tédio. Palavra que eu também desconhecia.

Hoje, caminhando numa rua com poucos humanos à vista, senti a agonia de ter aquele tempo fugidio, amarelado num quadro qualquer pregado na memória, escapando entre os dedos. Enquanto me abaixei para amarrar os cadarços do gasto All Star, senti o cheiro dos mesmos biscoitos e em seguida a melancolia de já não medir o tempo daquela forma.

Não posso dizer se era de fato alguém manufaturando a mistura de farinha, ovo, açúcar e leite. Era certamente uma alegoria de como o pouco tempo amarrando os cadarços seriam refletidos ao longo do dia, no atraso de quem perdeu segundos preciosos, de quem não vai ter no fim da tarde o cheiro de biscoito marcando o tempo. Doloroso, por assim dizer.

Com as lembranças ainda quentes, o patético de se notar caminhando, lendo e ouvindo música ao mesmo tempo. Lô Borges dizendo, em “Feira Moderna”, que o meu sorriso é o que eles temem. O horóscopo do jornal falando em saturno. Medo, medo.

No caso da música, convenci-me de que talvez o meu sorriso seja hoje o que eu mais temo. Essa coisa alinhavada na pressa de hoje e na incerteza de amanhã, sorriso com cor, nunca ouvi dizer que fosse bom. Amarelo? Que seja. Por isso mesmo sem a menor graça, riso tedioso de quem não ri com gosto faz algum tempo.

Rir do horóscopo, quem sabe. O riso nervoso de quem não liga a mínima para Saturno, mas sente um nó no estômago quando pensa no seu retorno. Nessa agonia de não ter tempo e não poder dividi-lo, como antes, no que me dá algum prazer e não seja automático, esse tal retorno tem sido como a espera pelos biscoitos na mesa, quentes, surpresos.

Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda eu sei. Falta tanto que já nem posso perder um fio de cabelo sequer, ou um cadarço amarrado no meio da rua enquanto ouço uma música e caminho apressado, querendo de volta o tempo que não era contado com ponteiros e vendo nas mãos os apetrechos que marcam meu atraso, feito biscoito de avó quando perde o ponto.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
p.a. em 15 de abril de 2007

gostei bastante! saudosista...


Larica em 13 de abril de 2007

também sinto falta da época em que não contava o tempo com ponteiros...adorei o texto, me fez sorrir as 8:55h da manhã...beijos


ARQUIVO DA COLUNA
© 2006 Casa da Matriz Produções Ltda | Todos os direitos reservados | Todas as mensagens enviadas pelos visitantes do site são de responsabilidade dos mesmos
Todos os preços estão sujeitos a alterações sem aviso prévio