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No meio do caminho... | 04 de abril de 2007

Não sei o nome científico da espécie, mas, segundo contou um jardineiro, a florzinha branca, de auréola dourada que se transforma em gineceu escuro, atende pelo nome de xanana. Até ontem o verbo “atende”, no sentido de receber atenção de quem é chamado, fazia pouco sentido para mim, em se tratando de xananas.

Elas estão por toda parte, no meio do lixo, nas sarjetas, nos jardins com os quais a prefeitura maquia a cidade dando a impressão de que tudo está bem, obrigado. A cidade fica mais bonita quando até pelo menos dez da manhã todas elas resolvem observar o sol com suas pétalas. Xananas por todos os lados.

No meio do trânsito engarrafado o ônibus lotado desliza poucos metros nos muitos minutos. Calor sufocante mesmo cedo da manhã, pessoas que falam alto sobre suas vidas tediosas; o inferno sem tirar nem pôr, resumindo. Na hora em que todos deveriam, segundo o meu gosto, seguir em silêncio para os seus postos, tudo é barulho e caos. Menos num canteiro, no meio da avenida principal.

Dá-se o improvável. Uma cena que poderia ser dirigida por Almodóvar? Fellini? Jeunet? Alheio ao mundo dos que não têm tempo para amenidades, um jardineiro, certamente da prefeitura, deduzo pela farda azulada, entrete-se com uma xanana. Sentado, refestelando-se do sol, deixa que os sentidos se percam nas pétalas esbranquiçadas.

Observa, cheira, cheira mais fundo, esmagando o nariz no gineceu da flor como se fosse, que não se perca pelo nome, uma xanana. Ali, no meio do trânsito, sem atrapalhar o tráfego, balbucia. Que segredos contará o jardineiro à flor que não tem dono? Deixa o corpo quase amolecer de tanta atenção ao cheiro e aos detalhes que certamente por ter os olhos bem próximos, consegue desnudar no sexo da flor.

Remeterá a flor à sua infância? Ou ao mais vil – e porque é tanto deve ser pueril – desejo que liga as formas e o nome da flor ao lascivo? Olho ao redor e as pessoas parecem pouco interessadas no fato surreal, de tão singelo, que ocorre um pouco além das janelas do ônibus. Só a poesia combate o asfalto, é o que penso para justificar minha atenção ao jardineiro, que por hora, sublima o incômodo da espera.

Enquanto equilibro a admiração pelo homem de mãos rudes encantado com uma flor de rua, entre a curiosidade de entender que segredos ele conta quando balbucia algo próximo da flor e o completo desinteresse pelo mundo que o cerca, a máquina poluidora que me carrega arranca a caminho dos muitos destinos que ficarão em cada parada.

A imagem vai se perdendo até sumir de vez quando chega a esquina. No meio do tempo algo que renderia uma cena de filme, uma foto, uma música, mas tudo assim sem a atenção do mundo, simples demais, poesia demais para ser levado em conta, o homem bolina sua flor de rua, xanana.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Rita Apoena em 08 de abril de 2007

Ainda bem que você quem viu. Eu jamais escreveria tão bonito. Sou sua fã. Mesmo.


Luciana Lucena em 04 de abril de 2007

As flores... tão importantes. Cheias de simplicidade. Essenciais pra vida. Ótimo texto. Tudo de bom.


Veca em 04 de abril de 2007

Grata pelas xananas, pelo jardineiro e pela sensibilidade do escritor que os contemplou!
Lindo, Rodrigo!
Abraço.
Veca


Nai em 04 de abril de 2007

Essas marias-sem-vergonhas! Estão por todo lado, em qualquer canto ordinário encontra-se uma.
Mas não se abrem a qualquer olhar e menos ainda a qualquer toque, afinal, quem vai querer tocar as vergonhas da Maria? Há quem queira, há quem tenha as mãos brutas e os sentimentos delicadamente esculpidos.

;)


Ana em 04 de abril de 2007

Lindo Rodrigo!
Feliz é o jardineiro, e os que enxergam o jardineiro.
Abs,
Ana


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