O tédio, que de tão lento e doloroso é quase palpo de uma aranha engendrando minha barba por fazer, se acomoda gélido em cima do birô. Entre uma vinda e outra do chefe à sala, duas ou três frases na maioria das vezes apagadas em seguida na folha em branco. Palavras fugidias, feito cavalo sem cela, cão sem dono, conto sem rumo. Clichê.
Comendo rápido no meio da rua para não perder a hora no trabalho enquanto Jimi Hendrix consome os meus tímpanos com “All Along The Watchtower”, o estômago remói de dor. Deve ser o cigarro. Deve ser.
Deve ser a sensação de esteira rolante de acordar todos os dias esfregando-se na cama com medo de levantar, adiando o purgatório que premia a agonia com dez ou doze páginas de Caio Fernando Abreu antes de dormir, quase devocional. A vista embaçada de sono e a crença ilusória de que um pouco de poesia vai salvar o mundo. Nem que seja o meu. Viver é acumular enganos. Não sei onde diabos li isso.
Tantos discos espalhados pela casa, livros marcados com notas fiscais das livrarias e as histórias pela metade, tudo que eu não vi ainda por estar cada vez mais disperso, por errar cada vez mais, ocupado sentindo os dedos encolhidos debaixo do chuveiro, para depois esquentá-los com o isqueiro queimando as mãos.
Tudo pela metade. A caixa de leite com prazo de validade esgotado, o sabonete, o creme dental aberto hás dias e sua tampa no fundo do ralo da pia esperando o resgate piedoso de quem naufraga aos poucos no ralo existencialista. O bolo de chocolate secando na geladeira até acomodar-se no lixo e ouvir meu lamento cínico de que “nunca mais compro um deste tamanho”.
A violência muda na TV sem volume acompanha os cigarros que fazem doer meu estômago. A violência parcimoniosa de matar-se uma única vez e esperar anos até sentir o sopro de vida esvaindo-se do corpo. Dizem que pelos pés. Ouvi isso alguma vez durante a infância: “a morte chega pelos pés”. Dia desses ocorreu-me o alívio nervoso de ser apenas dormência pelo modo como dobrava as pernas, uma sobre a outra.
Eu, esse ser de barba por fazer e dezenas de latas de coca-cola com neosaldina consumidas semanalmente. Constantemente entorpecido pelo excesso de responsabilidades que parecem não se acomodar confortavelmente na minha inabilidade com ritos de passagem. As contas por pagar em cima da mesa da cozinha, protegidas do vento pelo pires com o doce de leite de ontem. Daqui a pouco as formigas chegam. Uma vez disseram que eu era doce. Faz um tempo.
Jimi Hendrix é legal. Desperdiçou bolo de chocolate? Da próxima vez chama os amigos pra comer. É... viver definitivamente é acumular enganos!
É verdade, deixou de ser doce... deixou de me paparicar...
mas como escreve bem, esse sacana!
;P
E ainda tem a gastrite...