Quando eu tento colocar em números o tanto de rock que injetei na veia nos últimos dois meses, quase chego a uma overdose. Pelo menos uns 50 shows. Algumas centenas de quilômetros, outras toneladas de equipamentos, palcos, parafernálias, noites em claro, pizza fria, enfim, a vida nada glamourosa dos backstages. A vida menos fácil ainda de quem escreve sobre isso e cultiva, portanto, o ódio alheio.
Isso sem contar a quantidade de discos que baixam todos os dias no meu iPod, esse vício do diabo, que se não me deixar surdo a médio prazo, já deixa confuso de imediato. É coisa demais. E coisa boa de menos. Tem um ar estranho no rock atual, com cheirinho de Bom Ar, lavanda e flores do campo que começa a embrulhar meu estômago. E não é de hoje.
Nunca foi segredo que o rock, desde que se entende por gente, não é lá tão prodigioso em letras e temáticas. Isso qualquer semestre de Yázigi ajuda a comprovar. Mas em linhas gerais. A verdade é que a emoção de ver Marky Ramone vivo, tem lá um pouco de nostalgia do que sequer vivemos e lança mão de uma vertente do rock um pouco menos asséptica, com mais ódio e se não isso, indignação.
Aonde viemos parar? É dessa indignação que falo. A revolta não anarco-punk, mas ao menos uma ironia fina, uma alfinetada no sistema, seja lá qual for. Menininhas sem inocência, corpos de debatendo no caos dos becos fétidos. Em que disco ficou a última gota de ódio do rock? Não quero falar do heavy metal e seus asseclas. Aquilo sempre me soou muito mais caricato do que sincero.
Quando a Variety, em 1955, decretou que o rock não duraria mais do que seis meses, foi vencida justo por essa rebeldia que hoje não se vê por aí. O rock virou um apanhado de canções de amor chorosas, dor de corno, o tal do emocore alimentando com coisas horripilantes uma legião de jovens que ao invés de indignar-se, nem que seja por pose, preferem chorar nos cantos, sem pose nenhuma.
E não foram os punks que inventaram isso. Em “Criaturas Flamejantes”, de Nick Tosches, há registros de quebra dos padrões morais ainda quando a mistura de folk, country e blues engatinhava nos botecos sujos do Mississipi. O rock sempre foi por natureza, ódio, grito, sexo, perda da consciência.
Se o punk rock foi uma espécie de “revolução industrial” dentro da febre progressiva dos anos 70, o hard rock levantou a bandeira, mesmo recheado de melodias farofa-com-frango, das mesmas sensações primitivas citadas por Tosches. Mas e depois? Um pouco de grunge para chacoalhar, quem sabe. Um suicídio marcante, algumas mortes por overdose, uma fábrica involuntária de novos ídolos, por serem iguaizinhos ao que o rock sempre pediu: sem limites, odiosos, indignados.
Quem vai empunhar essa bandeira daqui em diante? Alguém que vê nas poças da rua um pouco de suas lágrimas certamente é que não. Não se fazem mais menininhas sem pudores como antigamente, garotos podres como outrora, ironias como de costume. O negócio é choramingar a mulher que saltou fora de casa, pedir pra que ela volte ou ao menos chegue de vez. Casinha limpa, cachorro na porta, o escambau. Só não tem raiva, só não tem vontade de navegar contra tudo isso e voltar a ser como nos bons tempos: sexo, drogas e rock and roll.