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Fantasmas | 18 de maio de 2007

Eu tenho febre, eu sei, um fogo leve que eu peguei. Do mar ou de amar, não sei, mas deve ser da idade. As coisas andam estranhas por aqui e não é de hoje, é bem verdade. Os fantasmas já circulam pela casa sem muita cerimônia, sentam no chão da sala e põem os discos que bem entendem. Fazer o quê?

Essa semana, enquanto tentava colocar ordem na mesma estante de sempre, que, aliás, de tão presente é quase humana, encontrei dentro de um velho livro de Ruy Castro uma lista de fantasmas. Coisa fina, feito o frio que atravessou a espinha e invadiu o estômago.

Não faço idéia de quando exatamente a escrevi. O guardanapo amassado e a tinta clareando por já ter dividido as letras com a página do livro pediram proximidade dos olhos. A letra um tanto diferente da atual, que de tanto usar o computador está virando hieróglifo egípcio. Entre livros empoeirados e contas a pagar transcrevi todos os itens numa folha em branco.

Em cima o aviso-título: entaladas. Nem eu compreendi de imediato o que diabos aquilo queria dizer. Uma lista de músicas com tal indicação depois de tanto tempo não parecia fazer muito sentido. Conferi se tinha todas, umas dez ao todo, no iPod e comecei a ouvir na seqüência sugerida. Um soco. Ou melhor: algo sem nome, entalado na garganta. Era isso.

Uma a uma das músicas e cada fantasma surgia de não sei onde, acomodando-se por toda a casa. Uma novelinha de roteiro freak show passando diante dos olhos meio assustados. Como se houvesse no ouvido um botão de start onde os primeiros acordes da maioria delas já remetiam às coisas ditas entaladas, difíceis de digerir. Uma decepção aqui, uma raiva acolá, pouco mais de dez fatos solitários, pouco mais de dez músicas.

Marina Lima ainda com voz, destilando “Charme do mundo”, de uma época sem charme algum de tão junkie que eu era. “Caçador de mim”, essa coisa brega que me corrói quando Milton Nascimento pronuncia a primeira frase. Enfim, é de paralisar sem dó, perceber o quanto ao longo desse tempo eles, os fantasmas, continuaram intactos, apesar da análise, de Jung, Freud e do álcool.

“Olho de peixe”, Lenine e Suzano, de quando no meio do mundo com uma mochila nas costas eu pensei seriamente em nunca mais voltar, sequer ligar e partir por aí. Deveria tê-lo feito? Pode ser, por isso mesmo a dúvida entala até hoje. É sempre tempo de enlouquecer e “I wanna be sedated”, Ramones, faz questão de lembrar isso. A lista quase no fim e como dói.

Até a última música, e nisso foi-se uma hora, eu já estava encostado na parede, tenso, algumas vezes sem conseguir chegar à última estrofe da música. Coisa demais de uma só vez, caleidoscópio com lógica, motivo, tempo, um guardanapo qualquer com esse poder inexplicável de deixar sem rumo.

É o que eu sempre chamei de “trilha sonora da minha vida”. O problema é esquecer por um bom tempo que também atuamos em filmes B e uns suspenses baratos que ainda assustam e redescobrir isso tudo por acaso dentro de um livro.

seta Rodrigo Levino

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