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Pé na cozinha | 04 de maio de 2007

Juntei um pouco as sobrancelhas em direção ao centro da testa e mirei de soslaio ao redor. Foi bem estranho me perceber entretido no meio de panelas, escumadeiras, raladores de pimenta e outros cacarecos de cozinha expostos na gôndola. A solidão às duas da manhã num supermercado tornou mais confortável o auto-flagrante. Ninguém por perto. A seção é toda minha.

A Nina já havia falado com autoridade de que na cozinha é onde os sentidos se encontram. Na verdade, o encontro por aqui parece ter sido outro. Levei pela mão a minha solidão ao encontro dos sentidos, que pela sensação de familiaridade repentina com as panelas (ou a tentativa disto) pareciam estar todos à minha espera.

Tem o modo cauteloso de cortar os legumes, a faca partindo sem ferir, descascando sem tornar feio. A pasta se acomodando na panela quando a água passa dos cem graus, a fumaça que é também cheiro e toma a cozinha toda quando o risoto está pedindo uma colher de manteiga para amaciá-lo. Os detalhes, o toque das colheres de madeira nas panelas, o choque da água fria retirando o excesso de goma da massa. É bom de ver, ouvir, sentir, cheirar e comer.

Os ouvidos, por vício até, vão um pouco além das bolhas de fervura que estouram leves na panela. Para cada cheiro, corte e textura (a seqüência de atos que finalizam num prato, em resumo), uma música, um refrão, um disco.

Combinando letras como quem combina temperos, o alho e óleo que refogarão o spaguetti caem bem com Teenage Fanclub, enquanto é preparado. Depois de repousado no prato fundo, pronto para servir, há algo de Byrds que eu não sei explicar ainda, mas se afeiçoa sem demora. Risoto à Kassin+2, que nem tem tanta classe, mas era esse o disco que tocava do início ao fim, então foi batizado assim.

O vinho, escolhido por intuição ou dicas rápidas de algum site especializado, chega ao último gole da garrafa para lá de Led Zepellin. Isso nos dias de menos tédio e desconfiança na vida. É bom confessar de vez: na maioria das vezes quando perco a conta das taças, desce um Clube da Esquina com força, mas nunca o suficiente para levar o nó na garganta. Nó que se chama moço, também se chama estrada, viagem de ventania.

Duas porções de sentido, algumas doses de informação rasteira só para conferir se o pesto combina mesmo com molho branco, sal a gosto e três pitadas de silêncio-casa-vazia-disco-velho, vão bastando como ingredientes onipresentes nas receitas engendradas calmamente. É o sossego fazendo casa nas mãos que se sentem leves, quando o corpo um pouco bêbado destampa a panela e vê que a mesa pode ser posta. Mesmo que com uma cadeira só, uma só taça.

Por isso, ser tomado de assalto pela flagrante osmose com os utensílios de cozinha no supermercado foi, mesmo que no início estranho, pacificador em último caso. A ratificação de uma nova descoberta, paraíso fruto do artificialismo, quase alquimia, de meter-se experimentando combinações que serão gosto, uns acertados, outros nem tanto.

Os bons resultados do esforço prazeroso se amontoam como pequenas e doces lembranças. Conseguir sensação que se assemelhe é o desafio. Essa que amansa a solidão, e quando encontra os sentidos faz festa entre as panelas.

seta Rodrigo Levino

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