O poeta Fernando Pessoa falava dos riscos do mar de Portugal, que deixou tantas noivas por casar, quando sentenciou que “tudo vale à pena quando a alma não é pequena”. Certamente não imaginou que a frase tivesse as mais variadas serventias ao longo do tempo. Misturando literatura com cinema, diante de alguns filmes às vezes cabe a pergunta: vale mesmo à pena? No fim das contas, quanto vale uma alma?
Esta semana estréia o filme “Escola de idiotas”, mais uma comédia americana cheia de clichês e cenas que tentam arrancar risos da platéia com argumentos de pura patetice, estrelada por Billy Bob Thornton. Este pelo menos entrega já no título a sua real intenção. O problema de alguns outros é disfarçar a vergonha de ser ruim em títulos e sinopses ou o pior: acreditar em si mesmo.
Nos últimos dois meses alguns filmes, que estiveram em cartaz e chegam agora às locadoras, tiveram a bilheteria sustentada por essas almas que acharam que valeria à pena se vender por uns trocados. Dennis Hopper, Ray Liotta, William Macy, Diane Keaton, Billy Bob Thornthon e John Travolta são alguns exemplos de atores com filmes brilhantes no currículo que fazem agora, à beira de pendurar as chuteiras, concessões vergonhosas.
Filmes como “Motoqueiros selvagens” e “Minha mãe quer que eu case”, que reúnem boa parte dos atores citados acima, de tão ruins, mal roteirizados e bobos deixam no ar a pergunta sobre o que leva eles a aceitar tais propostas. Dinheiro? Provável, mas depois de tanto que acumularam seria avareza pura e simples.
Que diabo de alma é essa que de tão grande faz Ray Liotta, aquele brilhante ator dirigido por Martin Scorcese em “Os bons companheiros”, achar que vale à pena meter-se numa comédia de quinta categoria? Será a mesma que impede John Travolta de anunciar a aposentadoria em grande estilo depois de “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino? Ou a que desmorona a marcante atuação de William Macy em “Fargo”, dos irmãos Cohen?
“Motoqueiros selvagens” é uma espécie de tiro de misericórdia na carreira desses três, a exibição pública da decadência, o apego desmedido a fama. O filme é um apanhado de piadas infames, a história inodora de alguns amigos fracassados que tentam com uma viagem de moto atravessar o país em busca da liberdade perdida.
A sinopse atraente, história de liberdade e tal, transformou-se num pedido vergonhoso de atenção que conta, o que é pior, com a anuência do público, que paga caro e segue feito boi ao matadouro, levado pela propaganda que os grandes nomes fazem de si mesmo nos cartazes expostos.
Não é o fato de aventurar-se pela comédia, um gênero que apesar de pouco valorizado – talvez pela péssima qualidade do que se tem produzido atualmente – merece tanto respeito quanto o drama ou o suspense.
Vejam o exemplo de Diane Keaton em “Alguém tem que ceder”, onde divide o set com Jack Nicholson, outro que também é brilhante quando faz comédia, vide “Melhor é impossível”. A interpretação da atriz parecia àquela altura ressuscitar a musa que sempre foi de Woody Allen, ganhadora de um Oscar por “Noivo neurótico, noiva nervosa”. Triste engano.
Agora em “Minha mãe quer que eu case” lamentavelmente Keaton cede às piadas misóginas, ao argumento fácil, à piada de bar. Esqueceu sabe-se lá por onde o savoir-faire, a maneira de fazer rir antes de terminar a frase, com uma ironia fina e não uma torta na cara. Pois é, torta na cara. O filme estrelado pela célebre atriz usa o mesmo artifício de Didi Mocó, nas tardes de domingo na TV, para fazer rir.
Vai ver, saber envelhecer e assumir que é hora de botar a viola no saco antes que as cordas desafinem é menos importante do que buscar a todo custo mostrar que tem uma grande alma e que tudo, tudo mesmo, mesmo as coisas que causam vergonha alheia, valem à pena.