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A cidade quando chove | 15 de junho de 2007

Eu gosto quando a cidade fica assim, invadida aos poucos por tons de cinza e azul, no fim da tarde quando a chuva começa a cair sem dó. O caos do asfalto escorregadio, a união involuntária das pessoas que precisam se acomodar embaixo da mesma marquise esperando a chuva passar. Eu gosto da chuva. Gosto da perturbação da chuva, vomitando a sua liberdade pelas bocas dos bueiros, desrespeitando os limites.

Por causa dela os postes com luzes de mercúrio se acendem um pouco antes do habitual e deixam as ruas alaranjadas, inquietas com o tanto de folhas que caem das árvores por causa dos grossos pingos d’água. Gosto de ver a chuva lavando os telhados, atrapalhando o tráfego, fazendo os meninos correrem protegendo com o peito o caderno da escola.

A chuva que traz o frio e depois o mormaço das calçadas quentes do sol a pino do fim da manhã. O frio que eriça os mamilos das moças, meninas de há pouco, e suas blusas brancas cheias de vergonha. O mormaço que arranca da mãe o grito de “menino, vem pra dentro de casa, menino! Você vai é adoecer com esse bafo!”. Gosto, gosto das buzinas, das senhoras nervosas e maquiadas que são obrigadas a descer com o pé na lama lamentando a colisão na traseira do caminhão, onde na carroceria os peões se molham na chuva.

Gosto da chuva e dos vidros embaçados onde os piegas escrevem seus recados eternos que só duram até o fim do calor, que se mistura com água e é suor. A chuva que atrasa o compromisso e por isso há um café que pode ser degustado com mais delicadeza em cima da mesa, enquanto ela diminui o ritmo lá fora.

São as janelas, que nunca são fechadas, mesmo no pior dos temporais, que me fazem apaixonado por chuva. Não fecho, me nego, que os móveis sejam afastados, colocados todos num canto do quarto, da sala, que seja, mas a chuva sim, ela pode entrar, se acomodar onde quiser, respingar onde bem pensar. Depois enxugo com cuidado o chão molhado.

Água metálica, feito ostra, com gosto de terra, que só quem bebeu fartos goles consegue reconhecer o caminho entre as nuvens e o copo, de alumínio, prefiro. Beber água de chuva é um prazer raro e caro, ritual de quem sentiu pouco antes a poeira levantando com o vento para depois amainar-se machucada com a força de cada gota.

Chuva é água suicidando-se, jogando-se para a morte contra o chão, arrancando da garrafa jogada na rua um som agudo, de um pedaço de ferro as notas graves da sua sinfonia monotimbrática. Água caindo, quem não reconhece? “Isso é chuva?”

Depois há a paz, a calmaria das ruas já desertas e dos poucos bêbados e loucos lamentando o fim da cachoeira que caia pela bica da esquina. O silêncio dos sinais de trânsito variando a cor ao acaso, quebrados por causa da chuva que acabara. O barulho dos eletrodomésticos em casa, agora a pouco sobrepostos pelo som de chuva. Eu gosto quando chove na cidade.

seta Rodrigo Levino

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