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Não há do quê | 04 de junho de 2007

A velha escolha eu abandonei faz alguns anos. Tomar o mundo feito coca-cola eu tenho tentado, mas aqui e acolá a azia prejudica a intenção. Hoje eu acordei mais velho. No fim das contas é só mais um dia chuvoso onde eu vou perder alguns minutos debaixo de uma marquise, esperando a chuva passar antes de entrar no banco e pagar algumas contas. Elas estão por toda parte. E aumentam consideravelmente à medida que os anos passam.

Revirei a lista telefônica procurando o número de Saturno. Preciso de alguma forma avisá-lo que não há necessidade de retornar, a casa está bagunçada, como é de costume. Uns discos no chão que há semanas deveriam estar organizados por ordem alfabética na estante, mas enfim, nunca há tempo, não é mesmo? De repente podemos adiar apenas, se for o caso de não ter como cancelar o tal retorno.

São tantas coisas para pôr em ordem, enquanto a sensação de que resta menos tempo ainda para ler os livros encalhados, comprados e ainda com a nota fiscal marcando a primeira página, é cada vez mais assustadora. Nunca serão lidos. Menos tempo, apesar do tanto pela frente. Mas nunca o bastante, entende? São minutos demais gastos com tédio e potes de doce de leite e a vontade de virar na esquina e encontrar o rumo das coisas. Saber o que fazer é sempre doloroso.

Vou me enganando, ou melhor, sendo sincero demais ao admitir que não há muito o que comemorar. Há dez anos o corpo de Jeff Buckley, uma das pessoas que conseguem iluminar todos os buracos que carrego na alma, era encontrado boiando no Mississipi. Mergulhou no infinito cantando “Whole Lotta Love”, do Led Zepellin. Não sei se a sensação é a mesma, mas ouvindo a mesma música senti o fôlego rarear ao mergulhar no mar de gente dentro do ônibus lotado, hoje cedo.

Todo dia se morre um pouco, feito Buckley. É mais ou menos isso que vai sendo escrito nas paredes de casa à medida que o tempo passa. Só se morre uma vez, e lentamente. Enquanto não falta o fôlego de vez, vai-se tangendo o vazio buscando um punhado de coisas que dêem sentido à rotina. Buckley, Bangs, Hornby, as velhas companhias silenciosas guardadas na estante. Um poema de Auden aqui, um disco de Miles ali. Um modo menos trágico de ser levado ao matadouro. Mas é a mesma coisa.

Impressões anotadas num guardanapo que semana que vem ao receber a roupa da lavanderia vou perceber que o esqueci no bolso de uma calça jeans desbotada. Desbotou também o que estava escrito. Findou sem fôlego, a escrita, afogada em tanta água. Derreteu. Sumiu. Esvaiu-se feito essa vida que vai embora todo dia um pouco, todo ano um muito. Um ano a mais. Resta cada vez menos tempo para ser no fim das contas, só um último romântico.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
Tamara em 05 de junho de 2007

esqueci de te dar os parabéns. mas pelo menos lembrei de ler sua coluna. parabéns por ambos!


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