A folha em branco é uma boca cerrada. Uma mudez que se arranca com o movimento dos dedos, que são quase dentes mastigando o teclado e juntos da língua produzindo a tal palavra. Escrever é um ato solitário como o poder. Um desconforto na beira do abismo de simplesmente não conseguir exprimir, de novo a tal palavra. E se sair, enfim, a quem servirá?
Não é prático como ligar um mp3 player e desligar-se do inferno ao redor, preso numa bolha de som em alto volume, dentro do ônibus, pela manhã. Os tímpanos doem, mas é que lá fora pode ser pior, então… Você liga, aumenta e some dali em instantes. Não é de todo mau, o esforço é pouco e o resultado, apesar de ilusório, alivia a pressão.
Não é fácil como comprar um disco pirata na esquina, três reais e coisa e tal. Não é. Não é simples como infringir a lei no meio da calçada do banco estatal e enfim, isso tudo custa muito caro e eu estou nem aí para o discurso em defesa do Estado e dos impostos. Chego em casa e esqueço tudo viajando no roteiro cabeça daquele diretor espanhol.
Escrever não é como chegar num bar pedir um guaraná com bastante gelo. E ficar viajando nas conversas vazias das lindas moças nas mesas e seus olhares furtivos para quem não precisa de muitas palavras e tem a tal da atitude. Eu não tenho. É impraticável carregar nos bolsos um punhado de poemas bacanas e até divertidos que falem sobre a solidão num bar. Serão lidos para quem? Certamente pela única menina com cara de psicopata do bar.
Não, não é como essa lista de pequenos prazeres da “síndrome de Amélie Poulain” que assola o mundo dos que precisaram de um filme para saber como é bom enfiar os dedos num saco de feijão ou deixá-los engelhar debaixo do chuveiro. A lista você só precisa copiar, experimentar ou fazer analogia com as coisas esquisitas que todos nós fazemos e só nós sabemos como é bom. Escrever é mais trabalhoso do que isso.
Não há explicação palpável e não ser uma faca invisível na garganta, um senhor de modos impositivos que não tem rosto, surge do nada e não deixa saída aos que escrevem, seja lá o que for e a quem o bilhete passado de mão em mão na sala de aula se dirija. Escrever é o ato final da tragicomédia de não ter onde se sustentar a não ser entre as palavras. Todas elas, escritas, faladas, observadas enquanto preenchem a folha em branco, como se a gravidade também as mantivesse em direção ao chão.
A folha em branco, um descampado aos poucos recoberto por sinais escuros que justificam a dor de uma unha encravada que é o pavor de não saber sobre o que falar. Escrever é a dor que de tão dor se anestesia, para depois ser a sensação delirante até, de sentir a pele formigando, sarando aos poucos e assaltando um resto de sorriso que há no canto da boca. O estômago se recompõe do soco quando não há mais espaço a ser escrito e a coluna desta semana está enfim, pronta.