Clique aqui para entrar na Página Principal do Portal
Veja os sites do Portal
Conheça nossos parceiros
topo
Um dia perfeito | 11 de junho de 2007

Não cheguei a quase morrer há menos de vinte duas horas atrás, feito a música da Legião Urbana, mas findei num dia perfeito, na varanda com as crianças e “corre que lá vem a chuva!”. Perfeito sempre me foi um adjetivo caro e raro, como as três meninas pulando juntas na rede e me acordando no meio da tarde que corria ensolarada no domingo.

É mais ou menos como um monge que renova os votos e, para ser menos metafísico, embora seja esse o sentido das coisas, um disco empoeirado que procuramos durante anos e quando desistimos, lá está ele, numa feira de sebos, no meio da rua, custando umas míseras moedas. E junto do disco a história das nossas vidas, que por mais que expliquemos a razão, só cabe nos nossos ouvidos o real valor de cada faixa.

Um compacto, desses de 78 rotações, quase o tanto de vezes que a Júlia rodopiou até cair no chão rindo e quando levantou me fez criar a história mais bonita que fui capaz e que de tão bela e absurda não vou conseguir colocar no papel, posso apostar. Em resumo, uma fazenda com dinossauros e pés de brigadeiro, rios de suco de acerola, pois coca-cola a mamãe não deixa, aliás, só uma vez por semana, aí pode.

O cachorro correndo com a bola vermelha na boca foi providencial. Quando eu estava prestes a confessar que não sabia que rumo dar a história, em poucos segundos lá estavam as três atazanando a vida do pobre cão e me fazendo respirar aliviado. As crianças foram até ontem, o que houve de mais inquisitório no meu modo de criar uma história. Júlia, com suas observações assustadoramente criticas para os poucos quatro anos, me fizeram gelar.

É que a urgência pelo encantamento por um mundo que ainda não conhece o futuro é lúdica e sincera, muito mais que a minha, que se perde todos os dias no desprazer de enfrentar trabalho-trânsito-tédio, enfim, a vida como ela é. Há uma leveza mesmo na desobediência delas quando insistem em segurar o garfo grosseiramente, apesar das recomendações constantes da mãe, que me impede de não ter o que por aí costuma-se chamar de calma e paz.

Isa, quando lamenta não haver sinais vermelhos na estrada que leva até a lagoa, para que ela possa aproveitar os poucos três minutos e ler o resto das frases do livro colorido, já que não consegue fazê-lo com o carro em movimento, deixa o mundo menos cruel. É como Bia, que quando arranca folhas de hortelã da horta, vigiada pelos meus olhos distantes, se transforma numa delicada mão que esmaga essa folha e espalha o seu cheiro no jardim.

Três mistérios insondáveis, uma interseção de inocência intacta que as protege do mundo, o mundo tal qual eu sinto queimar na pele todos os dias enquanto espero o ônibus e ouço nos headphones Legião Urbana cantar “Um dia perfeito”. Três mundos iguais aos que eu deixei no meio do caminho quando a inocência foi se perdendo, e só ontem, cercado por elas, as três meninas, eu senti de novo nas mãos, como um monge que renova os votos, seja lá no que for, mas eu prefiro que chamem de algo perfeito.

seta Rodrigo Levino

seta Comentários Enviados
p.a. em 12 de junho de 2007

algo que escreves é visceral... bjo


ARQUIVO DA COLUNA
seta 15 de junho de 2007 | A cidade quando chove
seta 11 de junho de 2007 | Um dia perfeito
seta 04 de junho de 2007 | Não há do quê
seta 26 de maio de 2007 | Vale a pena?
seta 18 de maio de 2007 | Fantasmas
seta 10 de maio de 2007 | Cadê o ódio que estava aqui?
seta 04 de maio de 2007 | Pé na cozinha
seta 26 de abril de 2007 | Cho, o matador
seta 18 de abril de 2007 | Rotina
seta 10 de abril de 2007 | Feira Moderna
seta 04 de abril de 2007 | No meio do caminho...
seta 21 de março de 2007 | Sessão Cervantes - Diálogos I
seta 15 de março de 2007 | Duas meninas
seta 08 de março de 2007 | Cold, bem cold...
seta 01 de março de 2007 | O animal agoniza em praça pública
seta 22 de fevereiro de 2007 | Das cinzas
seta 15 de fevereiro de 2007 | Para chatear os imbecis
seta 08 de fevereiro de 2007 | Já era!
seta 31 de janeiro de 2007 | Ideologia: eu quero uma pra morrer
seta 18 de janeiro de 2007 | O limbo das curas
seta 10 de janeiro de 2007 | Como estava
seta 03 de janeiro de 2007 | Little Fish
seta 14 de dezembro de 2006 | Waiting for You
seta 07 de dezembro de 2006 | Yankees, go home!
seta 30 de novembro de 2006 | O medo da fila
seta 27 de novembro de 2006 | Do som nascem as palavras.
seta 19 de novembro de 2006 | Feliz ano novo!
seta 11 de novembro de 2006 | Todos iguais, todinhos!
seta 03 de novembro de 2006 | Freio de arrumação
seta 26 de outubro de 2006 | Cinema, Aspirinas e Urubus.
seta 18 de outubro de 2006 | ...ergue e destrói coisas belas.
seta 10 de outubro de 2006 | Tudo de bom
seta 27 de setembro de 2006 | Eu sou um condomínio
seta 20 de setembro de 2006 | Finas ironias
seta 13 de setembro de 2006 | Interconexões artísticas
seta 06 de setembro de 2006 | Você precisa de Bob Dylan
seta 28 de agosto de 2006 | Além da conta
seta 22 de agosto de 2006 | Forward
seta 17 de agosto de 2006 | Delicadeza Islâmica
seta 09 de agosto de 2006 | O rock existe para que a verdade não nos destrua
seta 02 de agosto de 2006 | Independentes ou morte!
seta 25 de julho de 2006 | Vou te contar...
seta 17 de julho de 2006 | Como água
seta 10 de julho de 2006 | O Surto
seta 04 de julho de 2006 | Bobby Gillespie
seta 26 de junho de 2006 | No mundo das crenças
seta 20 de junho de 2006 | Todos os dias
seta 12 de junho de 2006 | Igual ao Nosso
© 2006 Casa da Matriz Produções Ltda | Todos os direitos reservados | Todas as mensagens enviadas pelos visitantes do site são de responsabilidade dos mesmos
Todos os preços estão sujeitos a alterações sem aviso prévio