Não cheguei a quase morrer há menos de vinte duas horas atrás, feito a música da Legião Urbana, mas findei num dia perfeito, na varanda com as crianças e “corre que lá vem a chuva!”. Perfeito sempre me foi um adjetivo caro e raro, como as três meninas pulando juntas na rede e me acordando no meio da tarde que corria ensolarada no domingo.
É mais ou menos como um monge que renova os votos e, para ser menos metafísico, embora seja esse o sentido das coisas, um disco empoeirado que procuramos durante anos e quando desistimos, lá está ele, numa feira de sebos, no meio da rua, custando umas míseras moedas. E junto do disco a história das nossas vidas, que por mais que expliquemos a razão, só cabe nos nossos ouvidos o real valor de cada faixa.
Um compacto, desses de 78 rotações, quase o tanto de vezes que a Júlia rodopiou até cair no chão rindo e quando levantou me fez criar a história mais bonita que fui capaz e que de tão bela e absurda não vou conseguir colocar no papel, posso apostar. Em resumo, uma fazenda com dinossauros e pés de brigadeiro, rios de suco de acerola, pois coca-cola a mamãe não deixa, aliás, só uma vez por semana, aí pode.
O cachorro correndo com a bola vermelha na boca foi providencial. Quando eu estava prestes a confessar que não sabia que rumo dar a história, em poucos segundos lá estavam as três atazanando a vida do pobre cão e me fazendo respirar aliviado. As crianças foram até ontem, o que houve de mais inquisitório no meu modo de criar uma história. Júlia, com suas observações assustadoramente criticas para os poucos quatro anos, me fizeram gelar.
É que a urgência pelo encantamento por um mundo que ainda não conhece o futuro é lúdica e sincera, muito mais que a minha, que se perde todos os dias no desprazer de enfrentar trabalho-trânsito-tédio, enfim, a vida como ela é. Há uma leveza mesmo na desobediência delas quando insistem em segurar o garfo grosseiramente, apesar das recomendações constantes da mãe, que me impede de não ter o que por aí costuma-se chamar de calma e paz.
Isa, quando lamenta não haver sinais vermelhos na estrada que leva até a lagoa, para que ela possa aproveitar os poucos três minutos e ler o resto das frases do livro colorido, já que não consegue fazê-lo com o carro em movimento, deixa o mundo menos cruel. É como Bia, que quando arranca folhas de hortelã da horta, vigiada pelos meus olhos distantes, se transforma numa delicada mão que esmaga essa folha e espalha o seu cheiro no jardim.
Três mistérios insondáveis, uma interseção de inocência intacta que as protege do mundo, o mundo tal qual eu sinto queimar na pele todos os dias enquanto espero o ônibus e ouço nos headphones Legião Urbana cantar “Um dia perfeito”. Três mundos iguais aos que eu deixei no meio do caminho quando a inocência foi se perdendo, e só ontem, cercado por elas, as três meninas, eu senti de novo nas mãos, como um monge que renova os votos, seja lá no que for, mas eu prefiro que chamem de algo perfeito.