“Seus braços são o único lugar do mundo sem morte”. Ahn? Ela perguntou dois segundos depois de subtrair a atenção que dedicava aos pratos sujos na pia. A espuma do detergente biodegradável cobrindo os dedos. Eu disse que nada, apenas havia pensado em voz alta, nada demais. E repeti. Seus braços. Lugar. Sem morte.
Os braços se abrindo em ângulos de pouca gravidade, o movimento circular acompanhando a borda dos pratos, o cabo das colheres, a serra das facas. Um lugar sem morte. Quarenta e sete centímetros quadrados de um fato apocalíptico; de quando a morte fugirá dos homens. Eram os braços dela. De costas, nua com o avental cobrindo os peitos. Ângulo reto do ombro ao cotovelo.
(…)
Faz um tempo. Inusitada. Com seus dois caminhos estendidos na sessão de frios do supermercado. Tarde da noite, quando os rostos denunciam apenas tédio e desilusão. Calor foi o que ela disse. Senti calor e estendi meus braços pra deixar o frio dos freezers tomar conta deles. Quanto podemos nos aproximar do sublime? As duas varas de bambu esguias com cheiro de cigarro e álcool, tal qual seu hálito: sublime.
Uma mulher que coleciona saboneteiras. Houve um dia em que todas elas, de muitas cores, derramaram-se desempilhando a pirâmide como haviam sido organizadas nos seus braços. Ela mostrando com um sorriso frágil a ingênuo que conseguia carregar todas de uma só vez. A fumaça grossa e cheia de formas dançando no ar seco do quarto. Riu descontroladamente, cruzando os braços rentes às coxas.
Dos braços estendidos a entrelaçados, tateando o escuro do mundo aconchegado no corredor que vai da sala ao quarto. Não muito tempo. E fui deixando as coisas, os ruídos ao redor de mim antes de partir. As botas, a mochila, as fitas, as agulhas. E pulei. Sem um pingo de auto-piedade nesse abismo entre dois braços. Braços em que não há morte.
*Sob poema de Fabrício Corsaletti