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<title>Coluna: Fora do Eixo</title>
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<copyright>Copyright 2007</copyright>
<lastBuildDate>Tue, 17 Jul 2007 10:44:26 -0300</lastBuildDate>
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<title>Sem morte*</title>
<description><![CDATA[<p>“Seus braços são o único lugar do mundo sem morte”. Ahn? Ela perguntou dois segundos depois de subtrair a atenção que dedicava aos pratos sujos na pia. A espuma do detergente biodegradável cobrindo os dedos. Eu disse que nada, apenas havia pensado em voz alta, nada demais. E repeti. Seus braços. Lugar. Sem morte.</p>

<p>Os braços se abrindo em ângulos de pouca gravidade, o movimento circular acompanhando a borda dos pratos, o cabo das colheres, a serra das facas. Um lugar sem morte. Quarenta e sete centímetros quadrados de um fato apocalíptico; de quando a morte fugirá dos homens. Eram os braços dela. De costas, nua com o avental cobrindo os peitos. Ângulo reto do ombro ao cotovelo.</p>

<p>(…)</p>

<p>Faz um tempo. Inusitada. Com seus dois caminhos estendidos na sessão de frios do supermercado. Tarde da noite, quando os rostos denunciam apenas tédio e desilusão. Calor foi o que ela disse. Senti calor e estendi meus braços pra deixar o frio dos freezers tomar conta deles. Quanto podemos nos aproximar do sublime? As duas varas de bambu esguias com cheiro de cigarro e álcool, tal qual seu hálito: sublime.</p>

<p>Uma mulher que coleciona saboneteiras. Houve um dia em que todas elas, de muitas cores, derramaram-se desempilhando a pirâmide como haviam sido organizadas nos seus braços. Ela mostrando com um sorriso frágil a ingênuo que conseguia carregar todas de uma só vez. A fumaça grossa e cheia de formas dançando no ar seco do quarto. Riu descontroladamente, cruzando os braços rentes às coxas.</p>

<p>Dos braços estendidos a entrelaçados, tateando o escuro do mundo aconchegado no corredor que vai da sala ao quarto. Não muito tempo. E fui deixando as coisas, os ruídos ao redor de mim antes de partir. As botas, a mochila, as fitas, as agulhas. E pulei. Sem um pingo de auto-piedade nesse abismo entre dois braços. Braços em que não há morte.</p>

<p><em>*Sob poema de Fabrício Corsaletti</em></p>]]></description>
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<pubDate>Tue, 17 Jul 2007 10:44:26 -0300</pubDate>
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<title>Sobre escrever</title>
<description><![CDATA[<p>A folha em branco é uma boca cerrada. Uma mudez que se arranca com o movimento dos dedos, que são quase dentes mastigando o teclado e juntos da língua produzindo a tal palavra. Escrever é um ato solitário como o poder. Um desconforto na beira do abismo de simplesmente não conseguir exprimir, de novo a tal palavra. E se sair, enfim, a quem servirá?</p>

<p>Não é prático como ligar um mp3 player e desligar-se do inferno ao redor, preso numa bolha de som em alto volume, dentro do ônibus, pela manhã. Os tímpanos doem, mas é que lá fora pode ser pior, então… Você liga, aumenta e some dali em instantes. Não é de todo mau, o esforço é pouco e o resultado, apesar de ilusório, alivia a pressão.</p>

<p>Não é fácil como comprar um disco pirata na esquina, três reais e coisa e tal. Não é. Não é simples como infringir a lei no meio da calçada do banco estatal e enfim, isso tudo custa muito caro e eu estou nem aí para o discurso em defesa do Estado e dos impostos. Chego em casa e esqueço tudo viajando no roteiro cabeça daquele diretor espanhol.</p>

<p>Escrever não é como chegar num bar pedir um guaraná com bastante gelo. E ficar viajando nas conversas vazias das lindas moças nas mesas e seus olhares furtivos para quem não precisa de muitas palavras e tem a tal da atitude. Eu não tenho. É impraticável carregar nos bolsos um punhado de poemas bacanas e até divertidos que falem sobre a solidão num bar. Serão lidos para quem? Certamente pela única menina com cara de psicopata do bar.</p>

<p>Não, não é como essa lista de pequenos prazeres da “síndrome de Amélie Poulain” que assola o mundo dos que precisaram de um filme para saber como é bom enfiar os dedos num saco de feijão ou deixá-los engelhar debaixo do chuveiro. A lista você só precisa copiar, experimentar ou fazer analogia com as coisas esquisitas que todos nós fazemos e só nós sabemos como é bom. Escrever é mais trabalhoso do que isso.</p>

<p>Não há explicação palpável e não ser uma faca invisível na garganta, um senhor de modos impositivos que não tem rosto, surge do nada e não deixa saída aos que escrevem, seja lá o que for e a quem o bilhete passado de mão em mão na sala de aula se dirija. Escrever é o ato final da tragicomédia de não ter onde se sustentar a não ser entre as palavras. Todas elas, escritas, faladas, observadas enquanto preenchem a folha em branco, como se a gravidade também as mantivesse em direção ao chão.</p>

<p>A folha em branco, um descampado aos poucos recoberto por sinais escuros que justificam a dor de uma unha encravada que é o pavor de não saber sobre o que falar. Escrever é a dor que de tão dor se anestesia, para depois ser a sensação delirante até, de sentir a pele formigando, sarando aos poucos e assaltando um resto de sorriso que há no canto da boca. O estômago se recompõe do soco quando não há mais espaço a ser escrito e a coluna desta semana está enfim, pronta.</p>]]></description>
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<pubDate>Sun, 24 Jun 2007 10:55:13 -0300</pubDate>
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<title>A cidade quando chove</title>
<description><![CDATA[<p>Eu gosto quando a cidade fica assim, invadida aos poucos por tons de cinza e azul, no fim da tarde quando a chuva começa a cair sem dó. O caos do asfalto escorregadio, a união involuntária das pessoas que precisam se acomodar embaixo da mesma marquise esperando a chuva passar. Eu gosto da chuva. Gosto da perturbação da chuva, vomitando a sua liberdade pelas bocas dos bueiros, desrespeitando os limites.</p>

<p>Por causa dela os postes com luzes de mercúrio se acendem um pouco antes do habitual e deixam as ruas alaranjadas, inquietas com o tanto de folhas que caem das árvores por causa dos grossos pingos d’água. Gosto de ver a chuva lavando os telhados, atrapalhando o tráfego, fazendo os meninos correrem protegendo com o peito o caderno da escola.</p>

<p>A chuva que traz o frio e depois o mormaço das calçadas quentes do sol a pino do fim da manhã. O frio que eriça os mamilos das moças, meninas de há pouco, e suas blusas brancas cheias de vergonha. O mormaço que arranca da mãe o grito de “menino, vem pra dentro de casa, menino! Você vai é adoecer com esse bafo!”. Gosto, gosto das buzinas, das senhoras nervosas e maquiadas que são obrigadas a descer com o pé na lama lamentando a colisão na traseira do caminhão, onde na carroceria os peões se molham na chuva.</p>

<p>Gosto da chuva e dos vidros embaçados onde os piegas escrevem seus recados eternos que só duram até o fim do calor, que se mistura com água e é suor. A chuva que atrasa o compromisso e por isso há um café que pode ser degustado com mais delicadeza em cima da mesa, enquanto ela diminui o ritmo lá fora.</p>

<p>São as janelas, que nunca são fechadas, mesmo no pior dos temporais, que me fazem apaixonado por chuva. Não fecho, me nego, que os móveis sejam afastados, colocados todos num canto do quarto, da sala, que seja, mas a chuva sim, ela pode entrar, se acomodar onde quiser, respingar onde bem pensar. Depois enxugo com cuidado o chão molhado.</p>

<p>Água metálica, feito ostra, com gosto de terra, que só quem bebeu fartos goles consegue reconhecer o caminho entre as nuvens e o copo, de alumínio, prefiro. Beber água de chuva é um prazer raro e caro, ritual de quem sentiu pouco antes a poeira levantando com o vento para depois amainar-se machucada com a força de cada gota.</p>

<p>Chuva é água suicidando-se, jogando-se para a morte contra o chão, arrancando da garrafa jogada na rua um som agudo, de um pedaço de ferro as notas graves da sua sinfonia monotimbrática. Água caindo, quem não reconhece? “Isso é chuva?”</p>

<p>Depois há a paz, a calmaria das ruas já desertas e dos poucos bêbados e loucos lamentando o fim da cachoeira que caia pela bica da esquina. O silêncio dos sinais de trânsito variando a cor ao acaso, quebrados por causa da chuva que acabara. O barulho dos eletrodomésticos em casa, agora a pouco sobrepostos pelo som de chuva. Eu gosto quando chove na cidade.</p>]]></description>
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<pubDate>Fri, 15 Jun 2007 09:39:53 -0300</pubDate>
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<title>Um dia perfeito</title>
<description><![CDATA[<p>Não cheguei a quase morrer há menos de vinte duas horas atrás, feito a música da Legião Urbana, mas findei num dia perfeito, na varanda com as crianças e “corre que lá vem a chuva!”. Perfeito sempre me foi um adjetivo caro e raro, como as três meninas pulando juntas na rede e me acordando no meio da tarde que corria ensolarada no domingo.</p>

<p>É mais ou menos como um monge que renova os votos e, para ser menos metafísico, embora seja esse o sentido das coisas, um disco empoeirado que procuramos durante anos e quando desistimos, lá está ele, numa feira de sebos, no meio da rua, custando umas míseras moedas. E junto do disco a história das nossas vidas, que por mais que expliquemos a razão, só cabe nos nossos ouvidos o real valor de cada faixa.</p>

<p>Um compacto, desses de 78 rotações, quase o tanto de vezes que a Júlia rodopiou até cair no chão rindo e quando levantou me fez criar a história mais bonita que fui capaz e que de tão bela e absurda não vou conseguir colocar no papel, posso apostar. Em resumo, uma fazenda com dinossauros e pés de brigadeiro, rios de suco de acerola, pois coca-cola a mamãe não deixa, aliás, só uma vez por semana, aí pode.</p>

<p>O cachorro correndo com a bola vermelha na boca foi providencial. Quando eu estava prestes a confessar que não sabia que rumo dar a história, em poucos segundos lá estavam as três atazanando a vida do pobre cão e me fazendo respirar aliviado. As crianças foram até ontem, o que houve de mais inquisitório no meu modo de criar uma história. Júlia, com suas observações assustadoramente criticas para os poucos quatro anos, me fizeram gelar.</p>

<p>É que a urgência pelo encantamento por um mundo que ainda não conhece o futuro é lúdica e sincera, muito mais que a minha, que se perde todos os dias no desprazer de enfrentar trabalho-trânsito-tédio, enfim, a vida como ela é. Há uma leveza mesmo na desobediência delas quando insistem em segurar o garfo grosseiramente, apesar das recomendações constantes da mãe, que me impede de não ter o que por aí costuma-se chamar de calma e paz.</p>

<p>Isa, quando lamenta não haver sinais vermelhos na estrada que leva até a lagoa, para que ela possa aproveitar os poucos três minutos e ler o resto das frases do livro colorido, já que não consegue fazê-lo com o carro em movimento, deixa o mundo menos cruel. É como Bia, que quando arranca folhas de hortelã da horta, vigiada pelos meus olhos distantes, se transforma numa delicada mão que esmaga essa folha e espalha o seu cheiro no jardim.</p>

<p>Três mistérios insondáveis, uma interseção de inocência intacta que as protege do mundo, o mundo tal qual eu sinto queimar na pele todos os dias enquanto espero o ônibus e ouço nos headphones Legião Urbana cantar “Um dia perfeito”. Três mundos iguais aos que eu deixei no meio do caminho quando a inocência foi se perdendo, e só ontem, cercado por elas, as três meninas, eu senti de novo nas mãos, como um monge que renova os votos, seja lá no que for, mas eu prefiro que chamem de algo perfeito.</p>]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/foradoeixo/arquivos/2007/06/um_dia_perfeito.php</link>
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<pubDate>Mon, 11 Jun 2007 23:23:11 -0300</pubDate>
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<title>Não há do quê</title>
<description><![CDATA[<p>A velha escolha eu abandonei faz alguns anos. Tomar o mundo feito coca-cola eu tenho tentado, mas aqui e acolá a azia prejudica a intenção. Hoje eu acordei mais velho. No fim das contas é só mais um dia chuvoso onde eu vou perder alguns minutos debaixo de uma marquise, esperando a chuva passar antes de entrar no banco e pagar algumas contas. Elas estão por toda parte. E aumentam consideravelmente à medida que os anos passam.</p>

<p>Revirei a lista telefônica procurando o número de Saturno. Preciso de alguma forma avisá-lo que não há necessidade de retornar, a casa está bagunçada, como é de costume. Uns discos no chão que há semanas deveriam estar organizados por ordem alfabética na estante, mas enfim, nunca há tempo, não é mesmo? De repente podemos adiar apenas, se for o caso de não ter como cancelar o tal retorno.</p>

<p>São tantas coisas para pôr em ordem, enquanto a sensação de que resta menos tempo ainda para ler os livros encalhados, comprados e ainda com a nota fiscal marcando a primeira página, é cada vez mais assustadora. Nunca serão lidos. Menos tempo, apesar do tanto pela frente. Mas nunca o bastante, entende? São minutos demais gastos com tédio e potes de doce de leite e a vontade de virar na esquina e encontrar o rumo das coisas. Saber o que fazer é sempre doloroso.</p>

<p>Vou me enganando, ou melhor, sendo sincero demais ao admitir que não há muito o que comemorar. Há dez anos o corpo de Jeff Buckley, uma das pessoas que conseguem iluminar todos os buracos que carrego na alma, era encontrado boiando no Mississipi. Mergulhou no infinito cantando “Whole Lotta Love”, do Led Zepellin. Não sei se a sensação é a mesma, mas ouvindo a mesma música senti o fôlego rarear ao mergulhar no mar de gente dentro do ônibus lotado, hoje cedo.</p>

<p>Todo dia se morre um pouco, feito Buckley. É mais ou menos isso que vai sendo escrito nas paredes de casa à medida que o tempo passa. Só se morre uma vez, e lentamente. Enquanto não falta o fôlego de vez, vai-se tangendo o vazio buscando um punhado de coisas que dêem sentido à rotina. Buckley, Bangs, Hornby, as velhas companhias silenciosas guardadas na estante. Um poema de Auden aqui, um disco de Miles ali. Um modo menos trágico de ser levado ao matadouro. Mas é a mesma coisa.</p>

<p>Impressões anotadas num guardanapo que semana que vem ao receber a roupa da lavanderia vou perceber que o esqueci no bolso de uma calça jeans desbotada. Desbotou também o que estava escrito. Findou sem fôlego, a escrita, afogada em tanta água. Derreteu. Sumiu. Esvaiu-se feito essa vida que vai embora todo dia um pouco, todo ano um muito. Um ano a mais. Resta cada vez menos tempo para ser no fim das contas, só um último romântico.</p>]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/foradoeixo/arquivos/2007/06/nao_ha_do_que.php</link>
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<pubDate>Mon, 04 Jun 2007 10:20:42 -0300</pubDate>
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<title>Vale a pena?</title>
<description><![CDATA[<p></p>

<p>O poeta Fernando Pessoa falava dos riscos do mar de Portugal, que deixou tantas noivas por casar, quando sentenciou que “tudo vale à pena quando a alma não é pequena”. Certamente não imaginou que a frase tivesse as mais variadas serventias ao longo do tempo. Misturando literatura com cinema, diante de alguns filmes às vezes cabe a pergunta: vale mesmo à pena? No fim das contas, quanto vale uma alma?</p>

<p>Esta semana estréia o filme “Escola de idiotas”, mais uma comédia americana cheia de clichês e cenas que tentam arrancar risos da platéia com argumentos de pura patetice, estrelada por Billy Bob Thornton. Este pelo menos entrega já no título a sua real intenção. O problema de alguns outros é disfarçar a vergonha de ser ruim em títulos e sinopses ou o pior: acreditar em si mesmo.</p>

<p>Nos últimos dois meses alguns filmes, que estiveram em cartaz e chegam agora às locadoras, tiveram a bilheteria sustentada por essas almas que acharam que valeria à pena se vender por uns trocados. Dennis Hopper, Ray Liotta, William Macy, Diane Keaton, Billy Bob Thornthon e John Travolta são alguns exemplos de atores com filmes brilhantes no currículo que fazem agora, à beira de pendurar as chuteiras, concessões vergonhosas.</p>

<p>Filmes como “Motoqueiros selvagens” e “Minha mãe quer que eu case”, que reúnem boa parte dos atores citados acima, de tão ruins, mal roteirizados e bobos deixam no ar a pergunta sobre o que leva eles a aceitar tais propostas. Dinheiro? Provável, mas depois de tanto que acumularam seria avareza pura e simples.</p>

<p>Que diabo de alma é essa que de tão grande faz Ray Liotta, aquele brilhante ator dirigido por Martin Scorcese em “Os bons companheiros”, achar que vale à pena meter-se numa comédia de quinta categoria? Será a mesma que impede John Travolta de anunciar a aposentadoria em grande estilo depois de “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino? Ou a que desmorona a marcante atuação de William Macy em “Fargo”, dos irmãos Cohen?</p>

<p>“Motoqueiros selvagens” é uma espécie de tiro de misericórdia na carreira desses três, a exibição pública da decadência, o apego desmedido a fama. O filme é um apanhado de piadas infames, a história inodora de alguns amigos fracassados que tentam com uma viagem de moto atravessar o país em busca da liberdade perdida.</p>

<p>A sinopse atraente, história de liberdade e tal, transformou-se num pedido vergonhoso de atenção que conta, o que é pior, com a anuência do público, que paga caro e segue feito boi ao matadouro, levado pela propaganda que os grandes nomes fazem de si mesmo nos cartazes expostos.</p>

<p>Não é o fato de aventurar-se pela comédia, um gênero que apesar de pouco valorizado – talvez pela péssima qualidade do que se tem produzido atualmente – merece tanto respeito quanto o drama ou o suspense.</p>

<p>Vejam o exemplo de Diane Keaton em “Alguém tem que ceder”, onde divide o set com Jack Nicholson, outro que também é brilhante quando faz comédia, vide “Melhor é impossível”. A interpretação da atriz parecia àquela altura ressuscitar a musa que sempre foi de Woody Allen, ganhadora de um Oscar por “Noivo neurótico, noiva nervosa”. Triste engano.</p>

<p>Agora em “Minha mãe quer que eu case” lamentavelmente Keaton cede às piadas misóginas, ao argumento fácil, à piada de bar. Esqueceu sabe-se lá por onde o savoir-faire, a maneira de fazer rir antes de terminar a frase, com uma ironia fina e não uma torta na cara. Pois é, torta na cara. O filme estrelado pela célebre atriz usa o mesmo artifício de Didi Mocó, nas tardes de domingo na TV, para fazer rir.</p>

<p>Vai ver, saber envelhecer e assumir que é hora de botar a viola no saco antes que as cordas desafinem é menos importante do que buscar a todo custo mostrar que tem uma grande alma e que tudo, tudo mesmo, mesmo as coisas que causam vergonha alheia, valem à pena.</p>]]></description>
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<pubDate>Sat, 26 May 2007 19:50:35 -0300</pubDate>
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<title>Fantasmas</title>
<description><![CDATA[<p>Eu tenho febre, eu sei, um fogo leve que eu peguei. Do mar ou de amar, não sei, mas deve ser da idade. As coisas andam estranhas por aqui e não é de hoje, é bem verdade. Os fantasmas já circulam pela casa sem muita cerimônia, sentam no chão da sala e põem os discos que bem entendem. Fazer o quê?</p>

<p>Essa semana, enquanto tentava colocar ordem na mesma estante de sempre, que, aliás, de tão presente é quase humana, encontrei dentro de um velho livro de Ruy Castro uma lista de fantasmas. Coisa fina, feito o frio que atravessou a espinha e invadiu o estômago.</p>

<p>Não faço idéia de quando exatamente a escrevi. O guardanapo amassado e a tinta clareando por já ter dividido as letras com a página do livro pediram proximidade dos olhos. A letra um tanto diferente da atual, que de tanto usar o computador está virando hieróglifo egípcio. Entre livros empoeirados e contas a pagar transcrevi todos os itens numa folha em branco.</p>

<p>Em cima o aviso-título: entaladas. Nem eu compreendi de imediato o que diabos aquilo queria dizer. Uma lista de músicas com tal indicação depois de tanto tempo não parecia fazer muito sentido. Conferi se tinha todas, umas dez ao todo, no iPod e comecei a ouvir na seqüência sugerida. Um soco. Ou melhor: algo sem nome, entalado na garganta. Era isso.</p>

<p>Uma a uma das músicas e cada fantasma surgia de não sei onde, acomodando-se por toda a casa. Uma novelinha de roteiro freak show passando diante dos olhos meio assustados. Como se houvesse no ouvido um botão de start onde os primeiros acordes da maioria delas já remetiam às coisas ditas entaladas, difíceis de digerir. Uma decepção aqui, uma raiva acolá, pouco mais de dez fatos solitários, pouco mais de dez músicas.</p>

<p>Marina Lima ainda com voz, destilando “Charme do mundo”, de uma época sem charme algum de tão junkie que eu era. “Caçador de mim”, essa coisa brega que me corrói quando Milton Nascimento pronuncia a primeira frase. Enfim, é de paralisar sem dó, perceber o quanto ao longo desse tempo eles, os fantasmas, continuaram intactos, apesar da análise, de Jung, Freud e do álcool.</p>

<p>“Olho de peixe”, Lenine e Suzano, de quando no meio do mundo com uma mochila nas costas eu pensei seriamente em nunca mais voltar, sequer ligar e partir por aí. Deveria tê-lo feito? Pode ser, por isso mesmo a dúvida entala até hoje. É sempre tempo de enlouquecer e “I wanna be sedated”, Ramones, faz questão de lembrar isso. A lista quase no fim e como dói.</p>

<p>Até a última música, e nisso foi-se uma hora, eu já estava encostado na parede, tenso, algumas vezes sem conseguir chegar à última estrofe da música. Coisa demais de uma só vez, caleidoscópio com lógica, motivo, tempo, um guardanapo qualquer com esse poder inexplicável de deixar sem rumo. </p>

<p>É o que eu sempre chamei de “trilha sonora da minha vida”. O problema é esquecer por um bom tempo que também atuamos em filmes B e uns suspenses baratos que ainda assustam e redescobrir isso tudo por acaso dentro de um livro.</p>]]></description>
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<pubDate>Fri, 18 May 2007 10:42:24 -0300</pubDate>
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<title>Cadê o ódio que estava aqui?</title>
<description><![CDATA[<p>Quando eu tento colocar em números o tanto de rock que injetei na veia nos últimos dois meses, quase chego a uma overdose. Pelo menos uns 50 shows. Algumas centenas de quilômetros, outras toneladas de equipamentos, palcos, parafernálias, noites em claro, pizza fria, enfim, a vida nada glamourosa dos backstages. A vida menos fácil ainda de quem escreve sobre isso e cultiva, portanto, o ódio alheio.</p>

<p>Isso sem contar a quantidade de discos que baixam todos os dias no meu iPod, esse vício do diabo, que se não me deixar surdo a médio prazo, já deixa confuso de imediato. É coisa demais. E coisa boa de menos. Tem um ar estranho no rock atual, com cheirinho de Bom Ar, lavanda e flores do campo que começa a embrulhar meu estômago. E não é de hoje.</p>

<p>Nunca foi segredo que o rock, desde que se entende por gente, não é lá tão prodigioso em letras e temáticas. Isso qualquer semestre de Yázigi ajuda a comprovar. Mas em linhas gerais. A verdade é que a emoção de ver Marky Ramone vivo, tem lá um pouco de nostalgia do que sequer vivemos e lança mão de uma vertente do rock um pouco menos asséptica, com mais ódio e se não isso, indignação.</p>

<p>Aonde viemos parar? É dessa indignação que falo. A revolta não anarco-punk, mas ao menos uma ironia fina, uma alfinetada no sistema, seja lá qual for. Menininhas sem inocência, corpos de debatendo no caos dos becos fétidos. Em que disco ficou a última gota de ódio do rock? Não quero falar do heavy metal e seus asseclas. Aquilo sempre me soou muito mais caricato do que sincero.</p>

<p>Quando a Variety, em 1955, decretou que o rock não duraria mais do que seis meses, foi vencida justo por essa rebeldia que hoje não se vê por aí. O rock virou um apanhado de canções de amor chorosas, dor de corno, o tal do emocore alimentando com coisas horripilantes uma legião de jovens que ao invés de indignar-se, nem que seja por pose, preferem chorar nos cantos, sem pose nenhuma.</p>

<p>E não foram os punks que inventaram isso. Em “Criaturas Flamejantes”, de Nick Tosches, há registros de quebra dos padrões morais ainda quando a mistura de folk, country e blues engatinhava nos botecos sujos do Mississipi. O rock sempre foi por natureza, ódio, grito, sexo, perda da consciência. </p>

<p>Se o punk rock foi uma espécie de “revolução industrial” dentro da febre progressiva dos anos 70, o hard rock levantou a bandeira, mesmo recheado de melodias farofa-com-frango, das mesmas sensações primitivas citadas por Tosches. Mas e depois? Um pouco de grunge para chacoalhar, quem sabe. Um suicídio marcante, algumas mortes por overdose, uma fábrica involuntária de novos ídolos, por serem iguaizinhos ao que o rock sempre pediu: sem limites, odiosos, indignados.</p>

<p>Quem vai empunhar essa bandeira daqui em diante? Alguém que vê nas poças da rua um pouco de suas lágrimas certamente é que não. Não se fazem mais menininhas sem pudores como antigamente, garotos podres como outrora, ironias como de costume. O negócio é choramingar a mulher que saltou fora de casa, pedir pra que ela volte ou ao menos chegue de vez. Casinha limpa, cachorro na porta, o escambau. Só não tem raiva, só não tem vontade de navegar contra tudo isso e voltar a ser como nos bons tempos: sexo, drogas e rock and roll.</p>]]></description>
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<pubDate>Thu, 10 May 2007 11:03:49 -0300</pubDate>
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<title>Pé na cozinha</title>
<description><![CDATA[<p>Juntei um pouco as sobrancelhas em direção ao centro da testa e mirei de soslaio ao redor. Foi bem estranho me perceber entretido no meio de panelas, escumadeiras, raladores de pimenta e outros cacarecos de cozinha expostos na gôndola. A solidão às duas da manhã num supermercado tornou mais confortável o auto-flagrante. Ninguém por perto. A seção é toda minha.</p>

<p>A Nina já havia falado com autoridade de que na cozinha é onde os sentidos se encontram. Na verdade, o encontro por aqui parece ter sido outro. Levei pela mão a minha solidão ao encontro dos sentidos, que pela sensação de familiaridade repentina com as panelas (ou a tentativa disto) pareciam estar todos à minha espera.</p>

<p>Tem o modo cauteloso de cortar os legumes, a faca partindo sem ferir, descascando sem tornar feio. A pasta se acomodando na panela quando a água passa dos cem graus, a fumaça que é também cheiro e toma a cozinha toda quando o risoto está pedindo uma colher de manteiga para amaciá-lo. Os detalhes, o toque das colheres de madeira nas panelas, o choque da água fria retirando o excesso de goma da massa. É bom de ver, ouvir, sentir, cheirar e comer.</p>

<p>Os ouvidos, por vício até, vão um pouco além das bolhas de fervura que estouram leves na panela. Para cada cheiro, corte e textura (a seqüência de atos que finalizam num prato, em resumo), uma música, um refrão, um disco. </p>

<p>Combinando letras como quem combina temperos, o alho e óleo que refogarão o spaguetti caem bem com Teenage Fanclub, enquanto é preparado. Depois de repousado no prato fundo, pronto para servir, há algo de Byrds que eu não sei explicar ainda, mas se afeiçoa sem demora. Risoto à Kassin+2, que nem tem tanta classe, mas era esse o disco que tocava do início ao fim, então foi batizado assim.</p>

<p>O vinho, escolhido por intuição ou dicas rápidas de algum site especializado, chega ao último gole da garrafa para lá de Led Zepellin. Isso nos dias de menos tédio e desconfiança na vida. É bom confessar de vez: na maioria das vezes quando perco a conta das taças, desce um Clube da Esquina com força, mas nunca o suficiente para levar o nó na garganta. Nó que se chama moço, também se chama estrada, viagem de ventania.</p>

<p>Duas porções de sentido, algumas doses de informação rasteira só para conferir se o pesto combina mesmo com molho branco, sal a gosto e três pitadas de silêncio-casa-vazia-disco-velho, vão bastando como ingredientes onipresentes nas receitas engendradas calmamente. É o sossego fazendo casa nas mãos que se sentem leves, quando o corpo um pouco bêbado destampa a panela e vê que a mesa pode ser posta. Mesmo que com uma cadeira só, uma só taça.</p>

<p>Por isso, ser tomado de assalto pela flagrante osmose com os utensílios de cozinha no supermercado foi, mesmo que no início estranho, pacificador em último caso. A ratificação de uma nova descoberta, paraíso fruto do artificialismo, quase alquimia, de meter-se experimentando combinações que serão gosto, uns acertados, outros nem tanto. </p>

<p>Os bons resultados do esforço prazeroso se amontoam como pequenas e doces lembranças. Conseguir sensação que se assemelhe é o desafio. Essa que amansa a solidão, e quando encontra os sentidos faz festa entre as panelas.</p>]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/foradoeixo/arquivos/2007/05/pe_na_cozinha.php</link>
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<pubDate>Fri, 04 May 2007 15:47:35 -0300</pubDate>
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<title>Cho, o matador</title>
<description><![CDATA[<p>A tradição do sacrifício com o objetivo de expiar pecados e culpas de um quinhão da sociedade, parece ter atravessado os séculos intacta. Numa espécie de up grade cruel da expiação dos cordeiros oferecidos a Javé, aos bois mortos em loas a Júpiter, chegamos ao século XXI com os mesmos meios de tentar livrar-se da responsabilidade coletiva sobre as desgraças das quais somos partícipes.</p>

<p>Fora os traços de psicopatia do coreano Cho Seung-hui, protagonista da carnificina na universidade de Virginia Tech e abaixo da camada de ódio que se lança contra um matador de jovens e professores brilhantes, engendra-se uma culpa que é de todos e deságua, infelizmente, em atos extremos que servem para apontar as chagas da sociedade superficial que ajudamos a construir todos os dias.</p>

<p>Responsabilizar o chamado “american way of life”, parece muito mais fetiche de esquerdista latino-americano do que razão segura para explicar o fato. Não são raros os dias em que sentados na nossa poltrona, o cabelo carregado de laquê da Fátima Bernardes compõe o anúncio de dezenas de mortes, seja nas favelas do Rio de Janeiro, ou nalgum assentamento no Pará. </p>

<p>Mas está tudo em casa, pobre matando pobre e sem o fantasma da competição capitalista americana, até nos sentimos confortáveis e mais seguros, quando na verdade o cenário é ágil, e só: trocam-se cadeiras e laboratórios bem equipados e ricos, por barracos, drogas e fuzis. O “brazilian way of life” parece nos chocar menos. Por quê?</p>

<p>Num outro vértice deste polígono social complexo, a beligerância de uma sociedade historicamente defensora das armas seria a explicação. Meia verdade. É bem provável que se cada estudante da universidade portasse uma arma, o número de mortos por Cho poderia ser bem menor, crivado que seria por balas dos seus colegas, defendendo-se do ataque. É uma hipótese que não deve ser desconsiderada.</p>

<p>Exclusão social de um filho de imigrantes? Mentira. Cursando uma das melhores faculdades do país (assim como sua irmã, uma brilhante aluna de Princeton), Cho era fruto da integração americana que ao longo do último século acolheu os melhores pesquisadores, estudantes, professores e intelectuais do mundo todo para as suas universidades, e não negou aos alunos e a suas famílias, a chance de ascensão social.</p>

<p>Vê-se, portanto, que a sociedade americana padece dos mesmos males de qualquer outra com quase 400 milhões de habitantes, vítima de suas maiores virtudes: liberdade de ir, vir, informa-se, de não deixar tudo embaixo dos panos, de transmitir ao vivo o que a China, queridinha da esquerda delirante, esconde debaixo do capitalismo sustentado por escravidão e censura. Há a mesma sujeira embaixo dos tapetes pelo mundo afora, a diferença é que a americana, assistimos via satélite, parece-nos então mais purulenta.</p>

<p>O último aspecto, diz respeito a um fato social tão antigo quanto o sacrifício que expia pecados: o rito de passagem. A sociedade cobra dos seus indivíduos – e isso não é uma invenção contemporânea – uma série de códigos de conduta e linguagem, deixando os que não se adaptam, à margem das relações interpessoais. É aí que nasce a explicação esdrúxula aceita por alguns, de que Cho dava pistas desde sempre do matador que seria, por causa do seu silêncio, da sua postura taciturna.</p>

<p>Ora, na era das fast celebrities, não parece aceitável para a maioria que alguém não disponha de um sorriso afável e falso, se desdobrando na comunicação globalizada, ampla, irrestrita para adaptar-se aos códigos exigidos pela maioria. É como se o silêncio fosse, nesse caso, um pecado, e escondesse nas suas entranhas um desejo de morte.</p>

<p>Esquecemos de imediato dos que matam aos gritos, culpamos em seguida por todos os males de uma sociedade alguém que antes de alvejar suas vítimas as cumprimentou, num gesto raro na própria conduta, com um “oi, como vai?”. O silêncio, preferível ao que nada tem a dizer e o faz apenas por conveniência, figura de imediato como pista de um crime. Quanta hipocrisia.</p>

<p>Cho, que parece não ter se adaptado a tantos códigos, realizou por último dois atos que o igualou a maioria dos que hoje o apedrejam, ironicamente: cumprimentou efusivamente as suas vítimas e deixou o seu protesto insano registrado em vídeo. Ora pois, uma fast celebritie, como a maioria dos de sua idade querem ser. Sendo assim, as razões que levaram Cho ao ato injustificável, estão tão intrinsecamente ligadas ao meio em que ele se movia, que quase se confundem. O que de certa maneira dificulta a auto-reflexão.</p>

<p>Um reality show sangrento, alvo ideal para esquecermos que, no momento mais irracional dos seus vinte e poucos anos é que ele conseguiu ser próximo e adaptado a sociedade que tanto maldiz nas últimas palavras: gentil (mesmo que falsamente) e celebridade (mesmo que por 15 minutos). </p>

<p>Um animal imolado com toda a nossa culpa, carregando consigo o ódio a uma sociedade comumente apedrejada pelo simples fato de ser americana, e que morto, nos traz a sensação de revolta rasa pelo que está longe, enquanto na nossa sala Fátima Bernardes anuncia dezenas de mortes todos os dias e parecemos não nos chocar, afinal, estamos num paraíso tropical. A nossa revolta Cho já carrega com sua tragédia, para que exatamente preocupar-se com o redor? Quanta hipocrisia, quanto sacrifício por nada.</p>]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/foradoeixo/arquivos/2007/04/cho_o_matador.php</link>
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<pubDate>Thu, 26 Apr 2007 15:51:34 -0300</pubDate>
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<title>Rotina</title>
<description><![CDATA[<p>O tédio, que de tão lento e doloroso é quase palpo de uma aranha engendrando minha barba por fazer, se acomoda gélido em cima do birô. Entre uma vinda e outra do chefe à sala, duas ou três frases na maioria das vezes apagadas em seguida na folha em branco. Palavras fugidias, feito cavalo sem cela, cão sem dono, conto sem rumo. Clichê.</p>

<p>Comendo rápido no meio da rua para não perder a hora no trabalho enquanto Jimi Hendrix consome os meus tímpanos com “All Along The Watchtower”, o estômago remói de dor. Deve ser o cigarro. Deve ser. </p>

<p>Deve ser a sensação de esteira rolante de acordar todos os dias esfregando-se na cama com medo de levantar, adiando o purgatório que premia a agonia com dez ou doze páginas de Caio Fernando Abreu antes de dormir, quase devocional. A vista embaçada de sono e a crença ilusória de que um pouco de poesia vai salvar o mundo. Nem que seja o meu. Viver é acumular enganos. Não sei onde diabos li isso.</p>

<p>Tantos discos espalhados pela casa, livros marcados com notas fiscais das livrarias e as histórias pela metade, tudo que eu não vi ainda por estar cada vez mais disperso, por errar cada vez mais, ocupado sentindo os dedos encolhidos debaixo do chuveiro, para depois esquentá-los com o isqueiro queimando as mãos.</p>

<p>Tudo pela metade. A caixa de leite com prazo de validade esgotado, o sabonete, o creme dental aberto hás dias e sua tampa no fundo do ralo da pia esperando o resgate piedoso de quem naufraga aos poucos no ralo existencialista. O bolo de chocolate secando na geladeira até acomodar-se no lixo e ouvir meu lamento cínico de que “nunca mais compro um deste tamanho”.</p>

<p>A violência muda na TV sem volume acompanha os cigarros que fazem doer meu estômago. A violência parcimoniosa de matar-se uma única vez e esperar anos até sentir o sopro de vida esvaindo-se do corpo. Dizem que pelos pés. Ouvi isso alguma vez durante a infância: “a morte chega pelos pés”. Dia desses ocorreu-me o alívio nervoso de ser apenas dormência pelo modo como dobrava as pernas, uma sobre a outra.</p>

<p>Eu, esse ser de barba por fazer e dezenas de latas de coca-cola com neosaldina consumidas semanalmente. Constantemente entorpecido pelo excesso de responsabilidades que parecem não se acomodar confortavelmente na minha inabilidade com ritos de passagem. As contas por pagar em cima da mesa da cozinha, protegidas do vento pelo pires com o doce de leite de ontem. Daqui a pouco as formigas chegam. Uma vez disseram que eu era doce. Faz um tempo.</p>]]></description>
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<pubDate>Wed, 18 Apr 2007 15:52:45 -0300</pubDate>
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<title>Feira Moderna</title>
<description><![CDATA[<p>Como se o cheiro fosse uma manufatura, dessas feitas com mãos cuidadosas, lentas como pede o capricho. Demorando um tempo que não cabia em si de tão longo até tomar toda a casa, os cantos e saltar pelas janelas invadindo o quintal. O cheiro dos biscoitos maturados no fogão à lenha, da minha avó.</p>

<p>O tempo, naquela época do ano em que eu me debandava para a fazenda, não era contado com ponteiros. Era o sol nascendo, alguém abrindo a porteira como fazia todos os dias naquela hora, era o sol alto no pingo do meio dia, depois morrendo e sendo noite. Era o tempo que o cheiro dos biscoitos levava aguçando o paladar até que estivessem postos à mesa.</p>

<p>Na minha parca noção de tempo e espaço, era mais fácil dividir o tempo assim. Parecia indolor, sem agonia. E era. Por mais repetitivas que fossem as atividades, talvez pelo fato de não virem acompanhadas de preocupação alguma, passavam ao largo do tédio. Palavra que eu também desconhecia.</p>

<p>Hoje, caminhando numa rua com poucos humanos à vista, senti a agonia de ter aquele tempo fugidio, amarelado num quadro qualquer pregado na memória, escapando entre os dedos. Enquanto me abaixei para amarrar os cadarços do gasto All Star, senti o cheiro dos mesmos biscoitos e em seguida a melancolia de já não medir o tempo daquela forma. </p>

<p>Não posso dizer se era de fato alguém manufaturando a mistura de farinha, ovo, açúcar e leite. Era certamente uma alegoria de como o pouco tempo amarrando os cadarços seriam refletidos ao longo do dia, no atraso de quem perdeu segundos preciosos, de quem não vai ter no fim da tarde o cheiro de biscoito marcando o tempo. Doloroso, por assim dizer.</p>

<p>Com as lembranças ainda quentes, o patético de se notar caminhando, lendo e ouvindo música ao mesmo tempo. Lô Borges dizendo, em “Feira Moderna”, que o meu sorriso é o que eles temem. O horóscopo do jornal falando em saturno. Medo, medo.</p>

<p>No caso da música, convenci-me de que talvez o meu sorriso seja hoje o que eu mais temo. Essa coisa alinhavada na pressa de hoje e na incerteza de amanhã, sorriso com cor, nunca ouvi dizer que fosse bom. Amarelo? Que seja. Por isso mesmo sem a menor graça, riso tedioso de quem não ri com gosto faz algum tempo.</p>

<p>Rir do horóscopo, quem sabe. O riso nervoso de quem não liga a mínima para Saturno, mas sente um nó no estômago quando pensa no seu retorno. Nessa agonia de não ter tempo e não poder dividi-lo, como antes, no que me dá algum prazer e não seja automático, esse tal retorno tem sido como a espera pelos biscoitos na mesa, quentes, surpresos.</p>

<p>Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda eu sei. Falta tanto que já nem posso perder um fio de cabelo sequer, ou um cadarço amarrado no meio da rua enquanto ouço uma música e caminho apressado, querendo de volta o tempo que não era contado com ponteiros e vendo nas mãos os apetrechos que marcam meu atraso, feito biscoito de avó quando perde o ponto.</p>]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/foradoeixo/arquivos/2007/04/feira_moderna.php</link>
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<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 15:47:12 -0300</pubDate>
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<title>No meio do caminho...</title>
<description><![CDATA[<p>Não sei o nome científico da espécie, mas, segundo contou um jardineiro, a florzinha branca, de auréola dourada que se transforma em gineceu escuro, atende pelo nome de xanana. Até ontem o verbo “atende”, no sentido de receber atenção de quem é chamado, fazia pouco sentido para mim, em se tratando de xananas.</p>

<p>Elas estão por toda parte, no meio do lixo, nas sarjetas, nos jardins com os quais a prefeitura maquia a cidade dando a impressão de que tudo está bem, obrigado. A cidade fica mais bonita quando até pelo menos dez da manhã todas elas resolvem observar o sol com suas pétalas. Xananas por todos os lados.</p>

<p>No meio do trânsito engarrafado o ônibus lotado desliza poucos metros nos muitos minutos. Calor sufocante mesmo cedo da manhã, pessoas que falam alto sobre suas vidas tediosas; o inferno sem tirar nem pôr, resumindo. Na hora em que todos deveriam, segundo o meu gosto, seguir em silêncio para os seus postos, tudo é barulho e caos. Menos num canteiro, no meio da avenida principal.</p>

<p>Dá-se o improvável. Uma cena que poderia ser dirigida por Almodóvar? Fellini? Jeunet? Alheio ao mundo dos que não têm tempo para amenidades, um jardineiro, certamente da prefeitura, deduzo pela farda azulada, entrete-se com uma xanana. Sentado, refestelando-se do sol, deixa que os sentidos se percam nas pétalas esbranquiçadas.</p>

<p>Observa, cheira, cheira mais fundo, esmagando o nariz no gineceu da flor como se fosse, que não se perca pelo nome, uma xanana. Ali, no meio do trânsito, sem atrapalhar o tráfego, balbucia. Que segredos contará o jardineiro à flor que não tem dono? Deixa o corpo quase amolecer de tanta atenção ao cheiro e aos detalhes que certamente por ter os olhos bem próximos, consegue desnudar no sexo da flor.</p>

<p>Remeterá a flor à sua infância? Ou ao mais vil – e porque é tanto deve ser pueril – desejo que liga as formas e o nome da flor ao lascivo? Olho ao redor e as pessoas parecem pouco interessadas no fato surreal, de tão singelo, que ocorre um pouco além das janelas do ônibus. Só a poesia combate o asfalto, é o que penso para justificar minha atenção ao jardineiro, que por hora, sublima o incômodo da espera.</p>

<p>Enquanto equilibro a admiração pelo homem de mãos rudes encantado com uma flor de rua, entre a curiosidade de entender que segredos ele conta quando balbucia algo próximo da flor e o completo desinteresse pelo mundo que o cerca, a máquina poluidora que me carrega arranca a caminho dos muitos destinos que ficarão em cada parada.</p>

<p>A imagem vai se perdendo até sumir de vez quando chega a esquina. No meio do tempo algo que renderia uma cena de filme, uma foto, uma música, mas tudo assim sem a atenção do mundo, simples demais, poesia demais para ser levado em conta, o homem bolina sua flor de rua, xanana.</p>]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/foradoeixo/arquivos/2007/04/no_meio_do_cami.php</link>
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<pubDate>Wed, 04 Apr 2007 11:11:41 -0300</pubDate>
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<title>Sessão Cervantes - Diálogos I</title>
<description><![CDATA[<p>- Assistiu “A Rainha”?</p>

<p>- Sim. Você fez mais do que isso.</p>

<p>- Como assim?</p>

<p>- Apenas uma relação midiática. Filmaço.</p>

<p>- Mas no fundo é isso mesmo: um grande teatro midiático. A rainha foi vítima do espetáculo que ela, mesmo como instituição, sempre encenou. Lembrei, por exemplo, de Umberto Eco, analisando o cortejo do casamento de Diana e Charles. Uma análise midiática.</p>

<p>- Você sabe alguma coisa sobre a reação da rainha ao filme?</p>

<p>- Gostou bastante. Convidou, inclusive, Hellen Mirren para tomar chá. Hellen por sua vez, dedicou o Oscar de Melhor Atriz a ela.</p>

<p>- Há falas bem pesadas no filme. A mulher de Blair, o marido da rainha – que não é rei – e do próprio príncipe Charles. Falas que vão além do conceito. Eu diria que preconceitos institucionais e até mesmo pessoais.</p>

<p>- Sim, mas com um toque de realidade assustador. O diretor havia produzido antes do filme, uma série para a TV inglesa nos mesmos moldes. Eu chamaria o filme de cine-documentário, as doses de realidade são assustadoras e escancaradas.</p>

<p>- Além do mais, a hostilidade é bilateral. Basta lembrar o que pensavam a rainha-mãe e o marido da rainha, sobre Blair e seus projetos de modernização.</p>

<p>- Pois é.</p>

<p>- Como o público britânico reagiu?</p>

<p>- O público absorveu o filme como um registro histórico que fez justiça à rainha. Ali, ela pôde até certo ponto, justificar as decisões da época.</p>

<p>- O Blair mostra-se manipulado pelo assessor e ao mesmo tempo deslumbrado com a realeza.</p>

<p>- O assessor era um monstro político, um Rasputin inglês. Bom de texto e de argumentação, mas insensível, sem o toque humano. Nesse ponto ele errou e Blair redime-se quando assume a condição de súdito e compreende o dilema da rainha.</p>

<p>- Você não acha que o papel de paspalhão acabou nas mãos de Charles? Sempre na “barra da saia” da mãe, discordando, mas sem argumentação suficiente para se impor.</p>

<p>- Pelo contrário. Ele é a própria síntese do pensamento de Blair e a antítese do pensamento da família real.</p>

<p>- Sim, concordo, mas do ponto de vista argumentativo e até carismático, ele não consegue se impor, preso que está a própria instituição do qual faz parte.</p>

<p>- Charles era cerebral, humano e de certo modo questionador da instituição, ao criar condições e situações de mudanças. Paspalhão é o pai dele.</p>

<p>- Sim, mas ainda sem habilidade para imprimir o pensamento dentro da própria casa, mesmo levando-se em consideração as amarras cerimoniais da realeza. O pai é mesmo ridículo, porta-se como um empregado da esposa.</p>

<p>- As falas de Charles se encaixam perfeitamente na realidade. Não há falhas, são contidas e certeiras.</p>

<p>- Nesse ponto o diretor foi bastante cuidadoso. Como sempre é. Dirigiu antes disso o filme que mais marcou a minha vida: Alta Fidelidade.</p>

<p>- Sim, grande filme.</p>

<p>- Aquela fala de Blair sobre o verão, a semana, as poucas horas em que ocorrem tantas coisas, como sendo um átomo se comparados ao período do reinado é digna do maior e melhor dos súditos.</p>

<p>- Ele rende-se por completo. De certa maneira, o filme é redentor para ambas as partes. A rainha se redime quando explicita a inabilidade em lidar com a tensão dos princípios a que está submetida e o apelo popular que ela desconhece. Blair se redime quando se reconhece súdito e assume tal postura.</p>

<p>- O filme reafirma as virtudes históricas dos princípios da realeza e coloca como episódicos os seus erros.</p>

<p>- Sim, as falas da rainha mãe confirmam isso. O modo como ela defende as atitudes reais e ao mesmo tempo remete-as a fatos históricos, justificam a posição, até certo ponto, tomada naquele momento.</p>

<p>- Por mais que você discorde da austeridade, a rainha representa ali uma instituição de mil anos, o que já incapacita uma tomada de posição contrária que se baseie no espetáculo.</p>

<p>- A cena em que a criança oferece flores à rainha é de levar às lagrimas. Duvido que tenha ocorrido, naquele momento e naquelas circunstâncias.</p>

<p>- Eu chamaria isso de licença poética do diretor. Jogou para a platéia.</p>

<p>- Caso fosse verdade, somente aquele gesto seria o suficiente para neutralizar e interromper todo um clima de hostilidade que as manchetes dos jornais e as frases passavam para os expectadores do filme.</p>

<p>- Um charme do diretor, nesse ponto, como em alguns outros, ele seduz a platéia.</p>

<p>- Como na seqüência em que ela atende ao telefone na cozinha, como quem pede um favor aos serviçais. Ou se preocupando com um animal abatido, tendo a vida toda participado de mais de uma centena de caçadas e provavelmente abatido mais de uma dezena de cervos. O carro quebrando tudo bem, mas é improvável que ela saia sem um telefone e precise retornar à cozinha para atendê-lo. Lembre-se de quando o carro quebrou, ela usava um celular. Até mesmo o seu marido, usou um no campo, quando retornava da caçada.</p>

<p>- A seqüência da cozinha penso ser convincente da forma como foi posta. A própria formação austera da rainha, criada na guerra e em condições em determinados pontos de sua vida próxima da realidade menos abastada, torna-a de alguma forma próxima dos serviçais, que devem acompanhá-la há décadas. Desde o início do filme não um só destrate aos serviçais.</p>

<p>- Quanto ao choro pelo animal, compreendi como sendo lágrimas de uma mínima devoção ao único ser vivo que acompanhou o seu momento de maior solidão, o único em que ela chora copiosamente em meio a crise. Só o cervo foi testemunha.</p>

<p>- Ou uma metáfora da morte de um indefeso.</p>

<p>- Não descarto essa hipótese. Iria até além: enxergou no animal a própria fraqueza dela?</p>

<p>- Ela pode transferir para o bicho a dor que não sentiu por Diana... ou mesmo ter sentido naquele momento, mais a morte do animal.</p>

<p>- Não por ela, agora entramos no mérito do diretor. O choro pelo animal, por incrível que pareça, recoloca a rainha no campo dos humanos.</p>

<p>- Faz algum sentido. Ali se conclui o processo de humanização que se perde no início do filme.</p>

<p>- Nós emprestamos a rainha os nossos sentimentos, projetamos psicologicamente uma mensagem que tem como resposta a lágrima que ela cavilosamente enxuga com a luva.</p>

<p>- Assim nos valorizamos à medida que valorizamos o gesto dela. Afinal, era aquilo que nós queríamos: uma lágrima sincera. No caso, aconteceu pelo animal. Quando ela chora sozinha, chora muito mais pela pressão e inabilidade do que pela morte de Diana.</p>

<p>- Aquela frase da esposa de Blair perguntando se ele “iria ver a namorada” é ridícula, mas cumpre bem a função de iconoclastia. A frase faz a platéia rir com prazer. Torna-a semelhante a uma personagem de seriados americanos, tipo “Friends”.</p>

<p>- É um grande filme, sem dúvida. Hollywood começa a sair do “ordinary people” e adentra na ficção análoga à realidade, fundindo as duas coisas.</p>

<p>- Pode ser o início de um novo processo de renascimento, como em 70, com Coppola, Kubrick, Scorcese.</p>

<p>- Há sinais. Desde Crash, além da ascensão dos mexicanos, revisitando as teses da Estética da Fome, sem o radicalismo de Lars Von Trier e seu Dogma, e os poucos recursos do Cinema Novo. Agora conectados à globalização, muito embora ainda aflitivos e católicos em demasia.</p>

<p>- Mas isso é outra conversa. Aceita uma cerveja?</p>

<p>- Só se for inglesa...</p>]]></description>
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<pubDate>Wed, 21 Mar 2007 10:45:33 -0300</pubDate>
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<title>Duas meninas</title>
<description><![CDATA[<p>- Menina, sai do meio do tempo, que lá vem chuva!</p>

<p>Na estrada de chão batido e seco, por onde deslizavam os pneus rangentes da bicicleta, ela esvoaçava os cabelos e o vestido de estampas discretas. Correndo no meio do tempo, antes que as pesadas gotas de água se derramassem céu abaixo. A voz que chamava era guia, linha de pipa que levava até a porta do casarão.</p>

<p>Nos leves traços de fidalguia que carregava nos dedos, o cuidado de não deixar espatifar no chão os punhados de liberdade, encontrados a muito custo nas ribanceiras que desnudam o rio. Atende à voz que chama, entrando em casa apressada, como os olhos cheios de urgência. Os punhados pedem o segredo de um canto nas sombras.</p>

<p>- Já saí mãe, do meio do tempo!</p>

<p>O tempo era um amontoado de poeira, um caminho longe que vai dar não sei onde, uma coisa sem portas nem janelas. O tempo eram as nuvens fechando o céu, o vento contorcendo as roupas no varal. O tempo era onde a menina colhia punhados de liberdade que precisavam de um lugar à sombra para esconder-se dos olhos maduros de quem carrega fardos de desilusão.</p>

<p>Nas frestas do chão um ninho. O intangível, mesmo que sem forma definida, sendo despejado levemente, caindo dos bolsos, levado por uma delicada mão. Um lugar à sombra, um segredo a mais. A voz guia atravessando a casa para fechar a janela do quarto. Chove.</p>

<p>Acomoda-se num canto da sala, os pés descalços, tensos, ralando no chão áspero até quase sangrar. É que liberdade fere a alma, leva o rumo, nos deixa sem saber muito que fazer a não ser ralar a pele e deixar que a chuva passe, até que estejamos novamente no meio do tempo e tenhamos algo mais a ser escondido entre as sombras.</p>

<p>***</p>

<p>Jeff Buckley, Grace. Os pés encharcados. Chove. Atravessa a rua apressada procurando uma marquise. Nos ouvidos a mesma música, desde cedo. Os dedos engelhados não disfarçam o frio. Falta pouco para cobrir-se com a solidão da casa vazia.</p>

<p>E quando o faz, despe-se ao longo do corredor, até acomodar-se num canto do quarto. Nos bolsos os compromissos que consomem o tempo. O tempo, esse amontoado de coisas urgentes e mal cicatrizadas, esmagando a liberdade que escorre pelos bueiros, junto com a chuva.</p>

<p>Rala os pés no carpete áspero. Entre folhas destacando poemas doces e músicas que se repetem horas seguidas, a tensão de estar perdida, sem saber, agora que colheu tanta liberdade, o que fazer até que a chuva passe.</p>]]></description>
<link>http://www.matrizonline.com.br/portal/colunas/foradoeixo/arquivos/2007/03/duas_meninas.php</link>
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<pubDate>Thu, 15 Mar 2007 16:53:38 -0300</pubDate>
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