Laboratório de Química, nem sei se ainda existe, era um jogo que vivia nas minhas listas de presentes de aniversário, natal etc. Quer dizer, não sei se realmente chegava a pedi-lo – e se realmente era um jogo –, mas fazer experimentos, como os supervisionados no colégio por um professor estilo maluquinho, povoava meu imaginário. Recentemente, descobri uma diversão parecida, só que de adulto: cozinhar.
Nunca fui afeita a isso e, sinceramente, nunca despertou meu interesse. Sempre achei mais interessante comer. E fora que meter a mão na massa, depois me dei conta, dá um trabalho absurdo. E, claro, um grande prazer, em vários sentidos, que pode compensar.
A aventura de se lançar em campo começa numa ida ao mercado, em busca de ingredientes. Antes disso, o trabalho começa com o desejo. O que desejo hoje? O que gostaria de ver se transformando em algo apetitoso, cheiroso, gostoso? Passado este estágio difícil, é mãos à obra mesmo.
Quando o desejo aponta para o peixe, haja saco para ficar esperando o peixeiro tirar escamas, por exemplo. Mas como não gosto de levar para casa animais inteiros e mortos poucas horas antes, fico com o filé, rosado, texturizado, pulsante. Ou ainda com lulas, que demoram séculos para serem limpas – e soltam aquela tinta, que me faz viajar em frente ao balcão gelado. Ou ainda polvos, graúdos e suculentos, desde que tenham muitas ventosas e tentáculos intactos.
E estamos apenas no início do processo. Em casa, separo as folhas, deixo de molho com vinagre, ligo o forno para assar tomates, tiro temperos, especiarias, o grande azeite extra-virgem do armário. E, quando percebo, já se foram duas horas, duas horas e meia. E ainda vou calculando quanto tempo falta para um prato ficar pronto, para a pele do tomate descolar, para o refogado chegar no ponto, o suflê atingir o ponto, crocante por fora, desmanchando por dentro. Além de químicas, essas reações são matemáticas do tempo.
O laboratório de química aparece quando, como se fosse uma criança de oito anos, imagino a pimenta dando gosto à carne, vejo o açafrão tingir tudo em volta de amarelo, me espanto com a clara em neve, que dobra de tamanho em minutos... O brilho nos olhos é o da descoberta – ou ainda o da vitória, ao ver que aquela mistura, aquele concentrado de ingredientes de diversos tipos tomou forma, ganhou cor e se tornou algo comestível e saboroso. Impressionar alguém, muito mais do que alimentar, é também uma sensação bacana.
Se der errado, como o feijãozinho do chumaço de algodão que nunca vai adiante, o jeito é partir para outra, sem decepções. E, quem sabe, refazer o processo à exaustão, como se dali fosse surgir o próximo Nobel da Química.