Em tempos de Copa do Mundo, nem mesmo a mais cética das pessoas deixaria passar em branco a influência que o futebol exerce sobre todos nós. Em todas as esferas da vida. O futebol mexe nas estruturas íntimas de torcedores fanáticos ou não, atrasa o andamento do trabalho, da faculdade, do colégio, burla regras e valores pessoais, destrói amizades, acaba com namoros. Se não fosse futebol, seria uma praga!
Mas cá estamos nós em mais um ano de Copa do Mundo. Ano para renovar o patriotismo, vestir algo verde-amarelinho (quando existem razões para isso?!) e ter orgulho de verdade de ser brasileiro. Pelo menos no quesito futebol temos reais motivos para estufar o peito e chamar a responsabilidade. Independente do resultado do jogo de sábado – depois de amanhã –, somos os donos da bola, das chuteiras, dos vestiários, da água, do apito, do campo, do estádio...
A euforia que vivemos hoje deve ter começado de maneira tímida, mas parece que só fez crescer, desde o finzinho do século retrasado, quando o inglês Charles Miller apresentou o famigerado esporte bretão à elite paulistana. Diria que graças às zilhares de peladas que se seguiram à primeira partida organizada, dizem uns, no São Paulo Athletic Club ou no colégio Pedro II do Rio, dizem outros, o país é essa sumidade.
E justamente aí, nesta brechinha, entra a inveja do título lá em cima... Eu tenho uma inveja danada da pelada. Sou a primeira a afirmar. Tenho inveja daquilo que torna os homens especialistas em organização, mestres em pontualidade, doutores em independência, loucos pela tal religião. Aqueles dia e hora tornam-se sagrados, muito mais do que qualquer consulta médica, estresse familiar, briga conjugal, encontro romântico. Para usar um jargão que não me encanta, não tem pra ninguém quando o assunto é pelada!
A inveja, porém, não nasce da carência que a pelada impõe às mulheres em geral – não só às casadas, amigos desmarcam despretensiosos chopes pelo futebol. Nasce de não ter nada parecido na história feminina que se equipare a esse fenômeno. Compras? Cabeleireiro? Almoço? Nada, nadinha. É triste. Abstrair tudo para bater uma bolinha não é coisa de menina, não enche os olhos, mas bem que poderia, não é? Deixaríamos a cama desarrumada, o celular desligado, a criança chorando, as contas sobre a mesa da cozinha sem qualquer culpa ou remorso. Seria glorioso.
Na volta, shortinho e meião de qualquer maneira na sala, chuteira imunda pronta para ser tropeçada, arranhados e hematomas para tudo que é lado. O mundo caiu e nada pode ser mais importante do que tomar um bom banho quente, deixar a água escorrer pelo cabelo horas...
Voltando à realidade, se de repente Freud tivesse vivido por aqui nos tempos passados, jamais teria bolado a teoria da inveja do pênis. Inveja do pênis?!? Tenho inveja da pelada, até porque a do pênis nunca me incomodou.
X X X
No último fim de semana, claro que não fui a nenhuma boate da moda. Mesmo assim, atingi o recorde de cantadas que começaram com “qual o seu nome?”. Fim de linha...