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A Inveja | 28 de junho de 2006

Em tempos de Copa do Mundo, nem mesmo a mais cética das pessoas deixaria passar em branco a influência que o futebol exerce sobre todos nós. Em todas as esferas da vida. O futebol mexe nas estruturas íntimas de torcedores fanáticos ou não, atrasa o andamento do trabalho, da faculdade, do colégio, burla regras e valores pessoais, destrói amizades, acaba com namoros. Se não fosse futebol, seria uma praga!

Mas cá estamos nós em mais um ano de Copa do Mundo. Ano para renovar o patriotismo, vestir algo verde-amarelinho (quando existem razões para isso?!) e ter orgulho de verdade de ser brasileiro. Pelo menos no quesito futebol temos reais motivos para estufar o peito e chamar a responsabilidade. Independente do resultado do jogo de sábado – depois de amanhã –, somos os donos da bola, das chuteiras, dos vestiários, da água, do apito, do campo, do estádio...

A euforia que vivemos hoje deve ter começado de maneira tímida, mas parece que só fez crescer, desde o finzinho do século retrasado, quando o inglês Charles Miller apresentou o famigerado esporte bretão à elite paulistana. Diria que graças às zilhares de peladas que se seguiram à primeira partida organizada, dizem uns, no São Paulo Athletic Club ou no colégio Pedro II do Rio, dizem outros, o país é essa sumidade.

E justamente aí, nesta brechinha, entra a inveja do título lá em cima... Eu tenho uma inveja danada da pelada. Sou a primeira a afirmar. Tenho inveja daquilo que torna os homens especialistas em organização, mestres em pontualidade, doutores em independência, loucos pela tal religião. Aqueles dia e hora tornam-se sagrados, muito mais do que qualquer consulta médica, estresse familiar, briga conjugal, encontro romântico. Para usar um jargão que não me encanta, não tem pra ninguém quando o assunto é pelada!

A inveja, porém, não nasce da carência que a pelada impõe às mulheres em geral – não só às casadas, amigos desmarcam despretensiosos chopes pelo futebol. Nasce de não ter nada parecido na história feminina que se equipare a esse fenômeno. Compras? Cabeleireiro? Almoço? Nada, nadinha. É triste. Abstrair tudo para bater uma bolinha não é coisa de menina, não enche os olhos, mas bem que poderia, não é? Deixaríamos a cama desarrumada, o celular desligado, a criança chorando, as contas sobre a mesa da cozinha sem qualquer culpa ou remorso. Seria glorioso.

Na volta, shortinho e meião de qualquer maneira na sala, chuteira imunda pronta para ser tropeçada, arranhados e hematomas para tudo que é lado. O mundo caiu e nada pode ser mais importante do que tomar um bom banho quente, deixar a água escorrer pelo cabelo horas...

Voltando à realidade, se de repente Freud tivesse vivido por aqui nos tempos passados, jamais teria bolado a teoria da inveja do pênis. Inveja do pênis?!? Tenho inveja da pelada, até porque a do pênis nunca me incomodou.


X X X


No último fim de semana, claro que não fui a nenhuma boate da moda. Mesmo assim, atingi o recorde de cantadas que começaram com “qual o seu nome?”. Fim de linha...

seta Nina Mansur

seta Comentários Enviados
Maria em 03 de julho de 2006

Nina, show de bola!
Boa sorte
bjs


Chauncey em 29 de junho de 2006

Já imaginou se além dos jornais espalhados pelo chão, livros, CDs e roupas ainda tivesse meião e chuteira???

adorei o texto...


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