É engraçada essa vida. Quanto mais se ganha, mais se gasta. Na época de estagiário, vive-se bem com R$ 250. Eu, por exemplo, até comprei uma bicicleta. Tudo bem que foi dinheiro empenhado na causa errada, ela está encostada em algum canto da garagem até hoje... Depois, pela hierarquia, passa-se a ganhar menos que o boy ou que a secretária, sem preconceitos. E aí, vai de cada um. Alguns trabalham de graça, outros se tornam verdadeiros capitalistas selvagens. São os preços que sobem assustadoramente ou você se torna um perdulário de primeira?
Há uns dois meses, soube que um estudante de psicologia pode ser efetivado numa empresa de grande porte com um salário 30% maior do que o meu atual. O primeiro pagamento dessa criatura feliz vai ser maior que o meu primeiro mais de mil vezes. Oquei, ele foi R$ 0 (isso mesmo, zero). A sugestão da confraria da qual faço parte foi apelar para a embriaguez. E tentar, pelo menos numa noite, não pensar nisso. Vou realmente tentar. Embriagar-se tem sido um recorrente remédio para todos os nossos males. O problema, sempre ali na frente, é gastar ainda mais recuperando o aparelho digestivo, que, na minha idade, fica um lixo por uns três dias e demora demais a voltar ao normal. Reflexões que só chegam com a idade.
Tive um namorado bem-sucedido que acordou numa bela manhã e disse: “Acho que você nunca poderia vir morar aqui comigo”. Esperei pelo acréscimo, ansiosa. “Seria eu ou as suas coisas”. Ufa. Hesitei por um momento e concordei. Parêntesis. Não que tenha um quarto extra só de roupas – quem dera! –, mas se tem uma coisa na qual sou boa é em juntar tranqueira: papéis variados, entradas de shows, filmes e peças de teatro significativas, bilhetes legais de metrô, recortes de revistas e jornais, cartões de restaurantes. Coisas que nunca mais vou tocar na vida simplesmente porque não trazem mais lembrança alguma. Fecha parêntesis. Mas a verdade é que não tive coragem de dizer a ele que o impedimento para me aninhar lá era o maldito do salário. Ou escolhia pagar a conta do celular ou o boleto da TV a cabo. Pegar táxi quando bate aquele cansaço na volta do trabalho... Putz, nem pensar! Academia, italiano ou aula de corte e costura? Um dos três uma vez por mês... “É, você tem razão. Não tem espaço suficiente aqui para você e minhas quinquilharias”. Fim de papo.
Na ponta do lápis (perdi outro dia um tempão e o sono pensando nisso), o fato é que à medida que se “cresce”, cresce também a sua lista de despesas fixas, cresce sua busca pelo conforto, por coisas melhores e, conseqüentemente, mais caras. Ou seja, menos dinheiro no fim do mês e mais responsabilidade. E aí, você espera ganhar mais. E nada...
Eu também sou assim. Pior que um astrólogo me disse que vou ser desse jeito pra sempre...