Uma cena cotidiana como ver alguém esticar o braço da janela do ônibus e jogar um papel amassado, uma embalagem de bananada ou até uma lata de refrigerante já me revolta, mas é algo que nunca pensei em ver fora dos limites de um país de futuroeterno como o nosso. Imaginava que nos países nórdicos, com toda aquela brancura, as pessoas teriam pena de jogar lixo na rua; nos Estados Unidos, a vergonha por sujar a própria pátria (ou o peso do ato no bolso, visto que quem emporcalha o espaço público paga uma pesada multa) é tão hipócrita quanto o comportamento social; na Europa, interferir numa obra de pelo menos 500, 600 anos seria como dar um tiro no pé - afinal, são muitos os países e as cidades que vivem exclusivamente do turismo. De qualquer forma, seja americano, latino-americano, europeu, africano, oriental, asiático ou marciano, a maioria esmagadora é mal educada, não tem noção de civilidade, não respeita as regras e os valores sociais e pessoais. Mais um mito que cai por terra.
Nas lojas, poucos seguram a porta para o outro entrar. No ônibus, pouquíssimos cedem lugar aos idosos. Nos monumentos milenares, um zilhão de autógrafos, assinaturas, bilhetinhos. Com caneta esferográfica, pilot preto ou com o saudoso liquid paper. Quem pensaria em andar com um daqueles iluminadores amarelos fosforecentes na bolsa senão para deixar sua marca?
No elevador, nas rampas, nas passagens individuais, a lei da preferência não existe, nunca existiu, jamais existirá. Você está sempre depois. Mas o melhor e mais surpreendente de tudo é saber que, do outro lado do mundo, há pessoas com os hábitos mais diversos e o mesmo comportamento daquele seu vizinho estúpido.
- Retire AGORA o que jogou na lixeira do meu bar! - grita o velhote, empertigadoatrás de um avental surrado, sabendo que naquela área ali vai ser difícil arrumar um lixo. Idiota.
Esse se encaixa perfeitamente naquele hábito bem brasileiro: as ruas são imundas, mas dentro da casa de cada porcalhão desses, pode-se lamber o chão. Juro que se não tivesse de férias, em outro tempo, em outro ritmo, pegaria a porcaria do copo de iogurte e colocaria bem na porta da vendinha, só pelo prazer de arrumar confusão.
O mais engraçado é que tudo é desculpável - nunca ouvi tantos pedidos de desculpas. É como errar, saber que errou, pedir perdão e na esquina seguinte, fazer o mesmo. Se desculpar não é mais quase sinônimo de se arrepender. Dane-se. É somente mais uma redenção. Faz-se merca num volume incrível. E daí? Não saberia dizer se é arrogância ou se falta de educação mesmo. Sugestões?
Mas como não estou a fim de esquentar a cabeça, deixemos isso para daqui a três semanas, vou apenas relevar. Vou tentar abstrair e seguir viagem. Porque com sujeira ou um brinco, isso aqui vai continuar sendo bem especial.
É engraçado como sou cada vez mais garota enxaqueca com isso. Tenho prestado mais atenção do que deveria nesses deslizes das pessoas e, deve ser por masoquismo, fico com uma raiva às vezes louca, insana.
Quando faço uma gentileza pequena - o que me custa? É educação - como segurar a porta do elevador ou dar a frente pra alguém e a pessoas não se desculpa mando um "de nada" bem alto... risos É curioso ver a reação delas...
beijos
Quero fazer o mesmo elogio que os meninos já fizeram por aqui. Belo texto mesmo, Nina. Beijo!
Bons modos acredito eu, é das únicas coisas atemporais, feito diamante. O problema é que assim como ele, cada vez mais raros. Belo texto como sempre.
Perguntei outro dia pra mina grávida aqui do escritório: "Alguém dá lugar pra vc no ônibus". Ela riu: "Muito raramente". Pô, eu fico torcendo pra aparecer alguém pr'eu dar lugar...
Bom, eu recomendo. Faça o bem em pequens coisas. Parece que bem educado quer dizer careta... MENTIRA! Teve um cara dizendo outro dia na TV que se ele jogar o lixo no chão, vai dar emprego para gari. A gari não soube responder... Eu sei! Se ela não precisasse catar o lixo dele, provavelmente a prefeitura a teria contratado para trabalhar numa escola, num hospital...
Belo texto, Nina!