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Estrangeira num país de estrangeiros | 13 de agosto de 2006

Ao desembarcar, você é um completo estranho. Não conhece ninguém, talvez não queira conhecer naquele momento, ninguém o conhece. E pior: não só te desconhecem como não te vêem. Subitamente, você ficou invisível. Tropeçam nas suas coisas, nos seus pés, dão encontrões nos seus ombros. Num segundo momento, vem o choque cultural. As pessoas usam outro tipo de roupa, um corte de cabelo que nunca passou pela sua cabeça, até os telefones celulares são diferentes. Nem menores nem maiores, apenas quase nunca antes vistos. E a língua. Por um instante, todos falam grego ou russo, ou árabe ou turco. E neste estado de confusão mental, o português de Portugal já lhe parece bem distante.

Do aeroporto até aquela que vai ser sua casa durante o mês inteiro, dá para sentir o cheiro da cidade. Mas nada fica registrado. Depois serão só lembranças vagas, daquelas que não se sabe se é verdade ou se foi parte de um sonho ruim. E aí, está feito, você é um habitante de outro planeta, em que todos vão te olhar na rua, vão fazer cara de nojo quando você abrir a boca para dar um simples bom dia, até vai ouvir uma perguntinha tida como inocente:

- Você sabe fazer o café, não? - olha fundo nos seus olhos a inquilina, agitando o bule no ar. Em seguida, o pousa na bancada.

Até onde sei, tomar café é um hábito universal. Quiçá interplanetário. Embora não tome café - e talvez por isso acho o máximo pessoas que saem para tomar um café, um cappuccino -, sei que em pelo menos uma esquina de cada cidade neste mundo há um café, uma cafeteira, uma garrafa térmica com o café frio de anteontem. Portanto, deve ser como dirigir. Se até analfabeto sabe, você - com todas as suas qualidades - se garante.

Pronto. De inocente você agora é um idiota. Feche as janelas, desligue o ar ao sair, não deixe a luz acesa, cuidado com as torneiras… Um verdadeiro mantra. E, claro, aos poucos vai encontrar pistas deixadas pelos cantos, escritas sempre em fonte corpo 6. Na versão original, em letras grandes, niente. Na versão “’não viu escrito aqui?! Como?” está lá: “Não nos responsabilizamos pelos objetos deixados aqui”. “Segura a bolsa, olho na carteira, se agarre à câmera fotográfica”. Nestes casos, sim, tenha vergonha de perguntar. Terá sorte se não começarem a falar devargazinho, tatibitate, como se estivessem falando com um bebê de oito meses.
O engraçado dessa situação é que, nesta terra aqui, está todo mundo no mesmo barco. É todo mundo estrangeiro, tentando sair com desespero do seu gueto, do seu mundinho estrangeiro-de-fora-daqui. Nas ruas, uma babel de idiomas misturado, e você não sabe para onde olhar. Sei que é antipático - bem ou mal, nesses situações, costumo ser muito mais que antipática -, mas tento me despir de todos os símbolos que possam me remeter a minha pátria. Nenhum nome escrito na roupa, no sapato ou na bolsa, nos acessórios, nem mesmo falar alto. Se tem uma coisa que aprendi a detestar em viagem e em temporadas no exterior é me identificar com aquela brasileirada mal educada, vergonhosa, que vaga pelas avenidas do mundo, gastando dinheiro desenfreadamente enquanto do outro lado da rua há um pequeno prazer gratuito. Ali, intacto, como se o tempo tivesse passado.

E depois do terceiro dia, quando você aprendeu a fazer a cara de nojo em troca, já sabe ignorar o que não presta e pouca coisa tem o poder de incomodar, você passa a se sentir verdadeiramente como um estrangeiro. Um estrageiro como todos eles, até os própios habitantes locais. Que diante de tanta gente de fora, já não deve reconhecer mais um conterrâneo, os costumes, os hábitos. Como você, já há tempos sem casa, mas acostumado a essa falta de identidade. E feliz por isso.

seta Nina Mansur

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