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Meu querido diário | 31 de agosto de 2006

Durante a adolescência, fazia questão de encher as agendas com o máximo de informação possível. Guardava bilhetinhos, embalagens de qualquer coisa, ingresso de cinema, recortes de revista e de jornal. E elas costumavam engordar tanto, que precisava, chegando o fim do ano, amarrá-las com um elástico ou, mais tarde, quando comecei a não achar tanta graça nesse trabalho monstro, com um barbante. Anos depois, rearrumando aqueles armários lá do alto, encontrei a caixa onde guardei grande parte desse material, que contava muito do meu estado de ânimo e, claro, das decepções infanto-juvenis. A cada semana, uma questão de vida ou morte.

Com essa descoberta arqueológica, tentei voltar com o hábito de fazer agenda. Ou, simplesmente, escrever um diário. Tentei muito, até porque pensava que lá na frente poderia ser objeto de pesquisa de sociedades futuras (risos) ou então apenas divertimento de filhos e netos nas tardes de domingo. Comprei um caderno bacana e fui escrevendo. Mas sem compromisso. Dia sim, dia não, sentava para escrever qualquer coisa. A combinação era colocar para fora pensamentos e medos, desenhar ou ainda registrar o que havia feito, sem falar bonito ou ir além. É óbvio que não durou um mês - acabou o saco. Perdi a paciência de carregar aquele caderno para tudo quanto é lado e, quando parava um tempo, não queria ficar elocubrando nada. Preguiça mesmo.

Hoje me arrependo de não ter insistido. Porque tanta coisa aconteceu naquela época... Dúvidas simples como lembrar o nome da tal pousada onde fiquei hospedada em tal viagem ou quando e de quem foi a tal festa em que conheci fulano poderiam ter sido facilmente esclarecidas. Digo isso porque, aleluia!, estou na terceira tentativa de fazer um diário - ou quarta, durante a infância tinha aqueles diários cor-de-rosa com cadeadinho, nos quais cada jornada começava com: "Hoje acordei às tantas horas e tomei café". Que nostalgia!

Tinha comprado um caderno qualquer e, de fato, comecei a desfiar ali não só os acontecimentos, mas alguns pensamentos. E por um momento tive medo, porque escrevi coisas das quais agora me arrependo. Mas não arranquei a folha ou saí riscando tudo. Entendi que aquilo deveria ficar gravado em nome do futuro, mesmo que, por descuido, deixasse à vista e alguém importante e tão curioso como eu - que fui extremamente curiosa esta semana, remexendo os, por assim dizer, diários dos outros - pudesse ficar magoado. E isso me deixaria, além de triste, muito envergonhada. Como quando, aos 11 ou 12 anos, encontrei um primo ligeiramente mais velho por quem era apaixonada platonicamente, lendo aquelas baboseiras de menina. Na época, foi como naquele sonho em que você chega na faculdade pelado e todo mundo te aponta, olhando e rindo. Naquele dia, depois do susto de ser descoberto, o máximo que ele pôde dizer foi:

- Mas que idiota você... Se todo dia você acorda e toma café, qual a graça?!?

Nunca tive coragem de perguntar até onde ele tinha lido, o que tinha achado (falava dele inclusive, mas não citavo o nome), mesmo quando a paixão passou, eu cresci, ele casou, separou e passamos a sair juntos em grupo com certa freqüência. Talvez porque ele não tenha idéia do que significa um diário para uma adolescente. Ainda bem.

Por tudo isso, espero que consiga continuar a escrever algo, mesmo que só os nomes das hospedarias, a avaliação dos bares e restaurantes, os preços das bebidas ou em que dia vi aquele filme que tanto detestei. Se não virar causa de gargalhadas familiares ou objeto de estudos antropológicos, pelo menos vira uma bela matéria de turismo.

seta Nina Mansur

seta Comentários Enviados
Kamille em 07 de outubro de 2006

Eu também tenho um caderno onde faço anotações. Mas não escrevo todo dia, só quando tenho vontade. É bom na hora, catártico. E depois, por ver como as coisas mudam, inclusive (e principalmente) a gente. Beijo.


Nina em 03 de setembro de 2006

Mila, inacreditável como está dando certo... risos Desta vez vou conseguir. E depois, com alguma pretensão, vou publicar e ganhar um dinheirinho! haha
beijo


Mila em 31 de agosto de 2006

Que saudades do meu diário!
vou comprar um caderno!
beijos! Adorei!


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