Desde então todas as minhas primeiras vezes na vida tinham sido impulsionadas por curiosidade, num primeiro momento, mistério e um pouco de medo, daqueles bons, que dão frio na barriga. Mas eis que me deparo com uma primeira vez cercada de um medo ruim, com cara de decepção, de fracasso, e quase que por obrigação. Questões da sobrevivência...
A cada ângolo de um espaço de 60 metros quadrados, monstros indecifráveis. Muito mais pelo que representam, menos por estarem numa língua que não compreendo por completo. De um lado um fogão de quatro bocas, logo em frente uma máquina de lavar louça, um varal flexível, mas não aquele que é fácil manejar. Ao lado, ela, quieta, esperando para cuspir fogo pelas ventas, a líder do reino dos bichos-papões, a rainha, a máquina de lavar roupa. Seu interior é uma aula de anatomia, é mais do que uma lição de dissecação de um ser humano.
Da pequena escotilha, aparentemente inocente, abre-se um universo de sentimentos e sensações, e uma série de compartimentos e recipientes, onde se deve colocar sabão em pó, o equivalente positivo da água sanitária, talvez o amaciante. Os botões, parecidos com aqueles das antigas televisões, de girar, já artigo de antiquário, trazem um emaranhado de números e letras, que deveriam formar palavras, mas só oferecem confusão. As combinações de dois botões então - pode-se escolher entre rodar para a esquerda, apertar, rodar para a direita, empurrar - nem com dicionário. E dá-lhe experimentação, e dá-lhe mistura de roupas de algodão simples com malha mais jeitosa, de jeans com tecido sintético, será que seda vai com esse tecido delicioso das roupas íntimas? E uma camisola, coitada, fica para o próximo round?
Oquei, perguntas excessivamente estúpidas, mas naquele momento de desespero tudo lhe ocorre, é quase como resolver uma equação do segundo grau de cabeça, ou melhor, usar todos os oito tempos verbais (atenção: são só os que conheço!) da língua italiana corretamente. Uma coisa contra a qual venho lutando nas últimas duas semanas. E, depois, mais um ninho de opções. Centrifugar? Secar? Desamassar? Isso sem contar o segundo ciclo. Esse sim, permacerá invicto para mim até o fim dos dias, virgem, virgem. Já chega de meias malhadas e estampas psicodélicas, quando tudo que queria era uma roupa limpa! Simples assim. É como aquele pesadelo que cisma em voltar quando adormeço, depois de tentar fazer com que vá embora.
Mas a cada dia uma primeira vez diferente. O que fazer para limpar um chão de madeira de lei? Não é aconselhável, mas é possível ligar a TV, o computador e o ar-condicionado ao mesmo tempo? E o celular, será que um dia vai funcionar? Já desisti da carteirinha de estudante, assim como não tento mais comprar passagem de ônibus em quantidade para conseguir desconto. Entreguei os pontos. O dono da garagem vizinha não merece nem mais um bom dia ou boa tarde. Afinal, tudo o que ele consegue emitir é um grunhido de desapontamento ou um triste lamento. Desde a primeira vez em que me viu. Mas acredito que ele esteja fazendo como eu, desdobrando a primeira vez em várias para que todas venham envolvidas nessa névoa (maligna ou não) da estréia. Aquela que depois que passa deixa uma grande sensação de invencibilidade, de orgulho e de sucesso.