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E a fauna vai ao cinema | 28 de setembro de 2006

Estacionar o carro é um caos, alcançar o bilheteiro, um problema, conversar despretensiosamente sobre a vida com alguém que você encontra sempre, impossível. Este é o panorama menos apocalíptico do Festival do Rio, que se instala na mente e nos corações de cariocas das mais diferentes origens durante o mês de setembro.

Que fique claro que acho louvável o esforço da produção de trazer filmes do mundo inteiro, bons e ruins, de todos os estilos, orçamentos, propostas. E de espalhar sessões desde a manhã até a madrugada por vários bairros da cidade e, com controvérsias, fazer com que nós respiremos cinema. É uma solução democrática e que merece ser elogiada.

De tão democrático, porém, o Festival do Rio se torna tirânico. Ele pauta as suas ações durante as duas semanas em que acontece. Se você não vai a nenhum filme, em que mundo você vive? Se você não viu “Volver” vai ficar de fora de todas as rodas de conversa, mesmo que depois ele estréie no circuitão – o papo perde força quando isso acontece, sabe? Você tampouco pode sair do trabalho e ir para casa dormir ou, no fim de semana, levantar da cama depois das 14h, tarde demais para garantir seu lugar num filme egípcio que passará ao meio-dia na Barra (distante 20km do lugar onde moro).

Mas o pior ainda está por vir. O povo quer ir ao cinema, badalar, ver e ser visto. Não interessa se o filme foi execrado pela crítica especializada ou se ganhou prêmios em três dos mais importantes festivais mundo afora. Interessa estar ali, assistir a cinco películas por dia e, à noite, nem lembrar mais o nome do primeiro ou a sinopse do último. Contar vantagem é a ordem:

- Este já é o meu quarto! – costumam dizer aqueles para os quais a quantidade é mais importante que a qualidade.

Não sei se eu é que sou azarada ou se em cada fila tem um grupelho chato e abusado, que incomoda os interessados em aproveitar a experiência muitas vezes única.
- Ai, você não acredita quem eu peguei ontem – suspira uma espectadora, de seus 23 anos, para duas amigas, falando num nível de decibéis maior que o das sinaleiras.
- Jura? Não acredito. Como é que foi isso? Me conta – suplica uma das interlocutoras, para todo o cinema escutar.

E a apaixonada desfia a ladainha e expõe a vida amorosa-sexual, que não diz respeito a ninguém e que bem poderia fazer parte de conversa de botequim, meio-mito, meio-lenda urbana, meio-verdade.

Na saída, a fila do banheiro é impraticável. O saguão é um formigueiro e, na bilheteria, as pessoas quase morrem porque tal título já está esgotado. Chegaram tarde demais. Mas, quer saber, ainda bem.

x x x

Não queria falar de política. Não tem a ver com esse espaço, destinado a crises existenciais, percepções, teorias e rabugentices... Mas não agüentei. Gostaria de chegar aos 30 menos pessimista em relação ao meu futuro. Assim não dá! Alguém esqueceu de avisar ao cara, a podridão tá comendo pelas beiradas – e chegando lá – e o índice dos que consideram o governo ótimo é de 44%, segundo pesquisa divulgada hoje pelo Bom Dia Brasil, da TV Globo. O que mais me desespera – sem fazer campanha para ninguém – é que o povo indeciso pensa em votar no candidato que lidera a corrida presidencial para se livrar de ir às urnas num segundo turno. Sou eu ou o mundo tá todo errado?

seta Nina Mansur

seta Comentários Enviados
Chauncey em 02 de outubro de 2006

E como tem filme de casalzinho discutindo a relação nesse fstival...


Rodrigo Levino em 28 de setembro de 2006

Essa coisa de pautar todas as conversas e deixar fora quem perdeu o último filme egípcio que ganhou um prêmio na Lapônia é o que eu digo: é que é muito charmoso não saber do que todo mundo já sabe ou saber do que ninguém ainda soube. Pura balela, pseudo-intelectualismo bobo e pior: pura vitrine. Já em se tratando de incautos e incultos, além de mal educados claro, que ficam testando decibéis da própris voz, anote aí uma promessa minha, já que você falou em política: Prometo, caso um dia eu seja eleito a qualquer porra de cargo público, criar o CCPQFCine - Centro de Caça e Prisão de Quem Fala no Cinema.

=)


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