Há pouco, estive no aniversário de um grande amigo, um jantarzinho para uns 15 seletos. Quando recebi o convite, me coloquei como meta porque gosto muito dele e porque há tempos não nos víamos. Sei que nesses eventos é difícil conversar direito, mas pelo menos teríamos assuntos para repercutir durante a semana. Na portaria, esperando o elevador com a minha companhia – atrasada como sempre, mas interessada em se inteirar sobre os personagens da reunião –, fui perguntada de onde eu e meu amigo nos conhecíamos.
– Da vida! – respondi enfática.
– Sei...
Antes de mais nada, adoro responder que conheço as pessoas da vida. E adoro, ainda mais, quando isso é verdade. De fato, a razão que nos aproximou foi o trabalho, mas antes de nos encontrarmos pessoalmente já tínhamos relacionado várias afinidades, já éramos amigos sinceros. A apresentação formal, que causou uma cena de ciúmes entre ele e a namorada na época, só confirmou o sentimento mútuo. É claro que não viramos inseparáveis depois disso, mas nos momentos de crise, eu, pelo menos, vou atrás dele. E sei que ele já me procurou algumas vezes, mas é muito orgulhoso para admitir.
– Você não é como as outras, uma suburbaninha que acompanha a novela, compra revista de fofoca e sonha conhecer Miami – uma vez me disse.
Retribuo mais uma vez o que chamo de elogio.
Depois do aniversário, conversamos não sobre o jantar, mas sobre um filme impagável que ambos tínhamos revisto no dia anterior na TV a cabo (já perceberam que nunca damos a sorte de pegar um bom filme desde o início nesses canais?). Harry & Sally – Feitos um para o outro traz várias discussões interessantes, a maioria, obviamente, fui entender mais tarde. Até porque o vi pela primeira vez em 1989, com minha mãe e a mulher do meu tio, no Roxy. E lembro que fiquei muito constrangida em algumas cenas. Naquela do orgasmo – nem sabia o que era isso – tive vontade de fingir que estava dormindo.
Disse para ele que tinha começado a desconfiar dos homens em geral com Harry & Sally. Como podia um homem ser tão irônico, tão debochado, metódico, esquisito, carente? Como ele podia arrumar namoradas com aquela rapidez? E como ele podia ter tantas teorias? Durante uma boa parte da minha vida, especialmente a da faculdade, a teoria da amizade sincera entre homem e mulher, que permeia toda a história, foi muito presente... Depois de um tempo, ou isso passou ou fiquei esperta o suficiente para entender quando havia verdadeiramente um interesse sexual.
Discutimos (porque ele tampouco entendia) sobre a passagem em que Meg Ryan chora desesperadamente porque o ex-namorado, com quem ela mesma havia terminado, iria se casar.
– Nós terminamos porque ele não queria casar. Mas ele não queria era casar comigo! – choraminga ela.
– Se ele aparecesse aqui pedindo para casar com você, você aceitaria? – rebate o Harry de Billy Crystal.
– Ela responde que lógico que não... – ria eu no telefone.
As mulheres são assim. Mas esse sentimento é engraçado e paradoxal. Dá uma depressão imensa saber que seu ex está apaixonado por outra, mesmo que você não queira ver o sujeito nem pintado de ouro. Pior é quando você descobre – depois de um telefonema do próprio – que ele está grávido ou que está de mudança para outro país. Ou até quando sabe pela vida que ele fez uma tatuagem, coisa que, quando vocês namoravam, ele abominava.
Expliquei tudo isso a ele, a gente riu mais um pouco, discordou mais um pouco e debochou até que ele, que não é gay, diga-se de passagem, encerrou o papo do jeito que eu mais esperava.
– Fique sabendo que sou seu amigo de verdade, mas não te quero.
Nunca fiquei tão feliz em levar um fora...
Hum... não sei... é que quando alguém deixa a vida da gente ainda leva uns pedaços de coisa, de casa, de nós mesmos, daí o incômodo da posse, puta sentimento burguêsinho e tal. Mas é só uma teoria. Aliás, comecemos a traçar a nossa, que salvará o mundo. Ou destruirá, rs.
O melhor foi a resposta no elevador: "sei".
Eu responderia exatamente a mesma coisa.