Mega evento da comunidade brasileira na cidade de Nova York, o Brazilian Day sempre esteve em meu inconsciente – ou consciente, não sei bem agora – como festa dos brasileiros que moram por lá e têm saudades de casa, do feijão preto, da farofa, do guaraná, das mulatas rebolativas e daquele calor humano que só a gente (desculpe, resto do mundo!) tem.
Tudo bem que hoje em dia é possível achar feijão preto, pretinho, em qualquer cidade com mais de cinco habitantes na Europa, o guaraná virou refrigerante internacional e as mulatas, bem, as mulatas também são globalizadas – e estigmatizadas. Mas o negócio é que o Brazilian Day, comemorado este ano no dia 3 de setembro (achei que não seria pertinente pesquisar se a data é móvel), onde estive como acompanhante, é ainda mais impressionante do que poderia supor. Para o mal, obviamente.
Para começar, a organização pediu que nos apresentássemos às 11h do tal domingo na entrada. Dei mole porque, como bom evento ‘brazooka’, a entrada oficial não existia, assim como o nosso contato não estava presente. Apesar de todos os rádios e de toda tecnologia made in china, não encontraram o moço e mudaram o nosso host na hora, muito simpático, por sinal. Não nos deram crachá ou qualquer identificação. Para transitar pelas áreas, precisaríamos estar acompanhados de alguém de camiseta branca ou azul, não lembro. Até aí, tudo bem. Se acontece exatamente dessa forma aqui, por que lá seria diferente?
Na hora marcada, estava sentadinha no quarteirão designado aos artistas,onde estavam estacionados caminhões-camarins de Sandy e Junior, TV Globo (patrocinadora), Leonardo (?), Banda Calypso (??) e Babado Novo (?). Sabia que estes eram os artistas convidados do evento – e, por favor, não estava na equipe de nenhum deles, tá? No centro do quadrado formado por esses enormes veículos, um batalhão de homens de todas as idades montava com eficiência mesas compridas da churrascaria Plataforma. “Oba, depois de mais de um mês sem comer carne de boi de verdade, de repente é uma chance”, pensei cá comigo, sem saber que o máximo que serviriam seriam salgadinhos pingando de gordura e cerveja Brahma (ah, esqueceram os abridores e as tampas não eram de rosca)... Os arranjos de flores eram de uma pobreza absurda, artificiais, claro. E nem cuidado tiveram de esconder o isopor mal
pintado de verde onde os cabos de plásticos estavam espetados. Mas tudo bem, pessoa easy going que sou, vamos esperar.
Meia hora e nada, ninguém. Uma hora se passou e o máximo que vi foi uma correria aqui, outra ali, garçons se mexendo, produção afobada. A rua começava a se encher de pessoas com camisetas verde-amarelas, bandanas nas cores da bandeira, shortinhos indecentes vestindo corpinhos ainda mais indecentes, verdadeiros tietes brasileiros, que festejavam a entrada de qualquer Zé-ninguém nessa área vip. E eu com as pernas coçando, qualquer multiplex me satisfaria naquele momento.
Até que o primeiro vip de verdade resolveu aparecer: Sandy e Junior entraram nesse curral escoltadíssimos. Todos na rua gritavam enlouquecidamente, os repórteres brasileiros se alvoroçavam para tentar entrevistá-los. O mais patético foi ver um dos garçons, garoto bombadinho de uns 18 anos, cara de criança, jeito de playboy, pedir para uma das meninas da produção – popozuda, sainha jeans, tênis de fazer esporte, meia soquete, cabelão até a cintura – conseguir que ele ficasse na fila para fazer uma foto com os irmãos. O garoto, não sei se tenho pena, tremia, apertava os olhinhos molhados, esticava o pescoço para admirar os ídolos (?!) e esperava impacientemente até O seu momento.
Resumindo a história do menino: a dupla fez o show, voltou, deu mais entrevistas, entrou no trailer, descansou mais um pouco, sempre na companhia de papai e mamãe, e saiu com malas e malas. O cara ali, se tremelicando todo, suando frio. No apagar das luzes, conseguiu a foto e talvez o autógrafo. E desandou a chorar, como um bebê, na frente dos amigos garçons, do patrão. Choro sincero, achei...
O dia foi passando e a coleção de personagens (e bicões) ia aumentando numa capacidade absurda. Ninguém ali conseguia articular o plural de maneira certa. Três mulheres com cabelos dos anos 60 (sem revisitas), andavam de mãos dadas, um coroa de camisa pólo e cabelo alisado penteado para trás catava guardanapos e anéis de lata do chão, talvez tentando retribuir a alguém seu convite. Cada combinação de roupa, de cabelos, de gente, Jesus. Quando a coisa esquentou de artista, ou seja, os citados lá em cima foram se apresentando, colocaram uns seguranças na porta. Eram enormes – um só era verdadeiramente fortão, os outros mais pareciam jogadores de futebol americano de tão gordos – e idiotas demais, atarantados, não sabiam para onde olhar. Deviam estar como eu, perdidinha.
Resolvi sair da concentração, até porque já passava das 15h, para olhar a festa. Deveria ter ficado, no entanto, era um circo dos horrores. Um milhão de pessoas nas ruas, foi a estimativa da polícia. Era gente de perder de vista. Empurra-empurra, um lixo absurdo, um cheiro horrível...
Saí de lá com as perguntas imbecis dos repórteres ecoando na cabeça, aquele movimento de gente sem noção me deixou mais enjoada que os salgadinhos de quinta e a cerveja quente. Mas minutos depois, quando a distância permitiu, não conseguia parar de rir do bizarro dia em Nova York. Isso porque vocês não viram os dançarinos da trupe do Leonardo. Me despi dos meus preconceitos aristocratas para fazer uma foto com os caubóis dele (risos), que depois do show, passeavam pela Times Square atraindo todos os olhares da multidão de turistas, americanos, republicanos, democratas, comunistas e brasileiros, claro.
Nossa!!! Não pensei que tivesse sido tão ruim.
Hahahahahahahahaha! Putz, um olhar cretino sobre uma coisa bizarra! =P
Ao menos você tem bom humor e consegue ver alguma poesia nisso tudo.