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Ficar para semente | 30 de outubro de 2006

Só mesmo meus avós para conseguirem me fazer ficar em frente à TV num domingo à noite. E pior, assistindo ao programa do Faustão. Não que este seja o programa favorito deles. Mas, nas últimas semanas, ver a competição de patinação artística entre nomes do terceiro escalão da Globo tem sido a diversão do dia. É realmente muito divertido, muito, ainda mais porque tenho um passado de habilidosa patinadora, costumava fazer aulas naquele finado rinque do Barrashopping há séculos, e sei como é difícil deslizar sobre aquelas lâminas fininhas e se recuperar de um tombo. Se espatifar sobre o gelo causa dores terríveis, além de hematomas imensos que demoram semanas para sumir.

O mais curioso é que fiquei ali, trocando comentários, criticando as coreografias, as roupas, as perfomances e rindo, aconchegada no colo do meu avô. Me senti criança de novo, como quando passava os fins de semana lá. Ia à praia com meu tio, comia o melhor bife do mundo (feito em frigideira de ferro fervendo, e com manteiga), dormia inventando episódios da grande história de um peixe que tinha perninhas, Hermenegildo. Fazendo uma análise mais cuidadosa do personagem, vejo que ele seria um revolucionário, um intelectual, alguém disposto a mudar o mundo, a começar com seus gambitos verdes.

Posso dizer, com toda certeza, que escolhi o caminho que sigo por influência dos meus avós. É certo que, quando nasci, minha avó não trabalhava fora e podia cuidar de mim em tempo integral enquanto meus pais tentavam ganhar a vida. Até depois de entrar para a escola, era ela quem me buscava, todo santo dia, e me levava para casa. Sabem o que é uma criança feliz? Acho que devo isso a eles.

E quando lembro que os anos passam, e todo mundo envelhece e a nossa vida ganha outras prioridades, penso que deveríamos ter a oportunidade de escolher duas pessoas para ficar para semente. Duas pessoas que parassem no tempo. Nada de esclerose, nada de dificuldade para caminhar, nada de falta de paciência, nada daquela ladainha de esperar a morte chegar, sem saber como e quando ela virá. Esse assunto seria esquecido e a gente poderia viver sem essa preocupação, sabendo que tem ali duas pessoas torcendo por você, acompanhando suas escolhas e vibrando com cada uma delas, mesmo aquelas das quais você não tem motivo para se orgulhar muito.

seta Nina Mansur

seta Comentários Enviados
Rodrigo Levino em 03 de novembro de 2006

Um amigo meu, já avô, diz que a sensação é a mesma. Segundo ele, a "avolescência" é um estado de espírito, algo indescritível.


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