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Papo mulherzinha | 04 de novembro de 2006

Esta não era a primeira vez que o papo dominava os presentes na sala. Uns liam jornal, uma fazia palavras cruzadas, dois ou três olhavam, mas não viam, a televisão.

– Quem ela pensa que é para falar isso? – esbravejou no canto da varanda, sobre o que via, e compreendia, o que tinha um papel impresso nas mãos.
– Ah, mas eu gosto. E qual o problema de ficar escrevendo sobre discutir a relação ou descrevendo filosoficamente a reação do gato ao se olhar no espelho?!

Pronto. A semente da discórdia havia sido lançada com sucesso. E o tema da discussão era o famoso papo mulherzinha, que estava sendo debatido por homens, mulheres, senhores, senhoras e senhoritas, além de dois adolescentes, que se mantiveram mudos por não ter nada a acrescentar.

Dez minutos de frases acaloradas, denúncias frias e críticas de motivação puramente pessoal. Não dava para levar nada a sério. Mas somente entender que papo mulherzinha é uma coisa que geralmente incomoda. Incomoda aos homens. Não consegui ainda compreender porque eles são tão contra aquela que fala sobre a importância de andar de mãos dadas pela rua e demonstrar afeto. E pior, não podem aceitar que alguém dê espaço a esse tipo de discussão em grandes meios de comunicação.

Sempre ouvi e concordo quando dizem que a culpa do machismo é da mulher. É ela quem cria meninos e os repassa, já (des)educados, a outras mulheres, essas da mesma ou parecida geração. Se eles aprenderam a não demonstrar o que estão sentindo e serem sinceros em seus sentimentos pode ser que a culpa – sempre ela! – seja das próprias mulheres que, paradoxalmente, vão acabar reclamando disso mais tarde.

O ciclo é vicioso, mas mudar a estrutura viciada é difícil. Pode ser que agora esteja mudando, já que alguns homens começam a entender que é importante, sim, dar valor a pequenos detalhes, principalmente numa relação madura. A diferença, porém, é gritante quando são comparados dois exemplos com alguma diferença de idade. Agora porque uma mulher que sofreu com o comportamento do marido ensinaria o filho a se comportar praticamente da mesma forma?

Interessante nas críticas a quem julga ser importante falar desse universo é a classificação. Ninguém merece ser desmerecido por tornar um pedaço de papel espaço público para discussões nas quais o centro é a mulher. Pelo contrário. Mas o fato é que por ser uma mulher que faz essa transformação, a coisa já nasce meio sem sentido. Como se só os homens pudessem fazer indagações sobre o rico universo feminino. Aliás, como se eles soubessem falar disso com propriedade...

Este papo foi motivado por, no fim das contas, ter ficado com uma ponta de dúvida: eu transformo um espaço em território de discussões femininas? Algo do que vem publicado aqui pode ser comum de dois gêneros? A conferir.

seta Nina Mansur

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