Há algumas semanas, ouvi um termo meio arrogante que resume muito bem meu sentimento sobre os encontros da vida: experiência sensorial. No caso, a expressão designava um restaurante, que oferece não só carícias ao paladar, mas aos ouvidos, ao tato, ao olfato, aos olhos. Pois tenho me encantado ainda mais com situações, pessoas, livros, filmes e lugares que proporcionem uma experiência sensorial maravilhosa. E descobri que um dos programas mais divertidos que fiz nesta vida foi visitar o Mercadão de Madureira, templo do consumo popular no subúrbio de mesmo nome no Rio.
Lá fui eu, acompanhada de uma amiga guerreira, ao caixote enorme e quente fincado no bairro que saiu do anonimato justamente por conta dessa atração quase turística, ampliada e reinaugurada por JK em 59. Antes disso, eram vendidos ali somente produtos de hortifrutigranjeiros. Hoje, o mix do shopping (risos) também vai de 650 lojas de macumba, de made in china, coisas de casa, de cozinha, de festas, de brinquedos, de doces, de temperos e bacalhau seco (argh!) e, o mais impressionante, de animais vivos! Os tridentes e os barcos a Iemanjá em perfeita sintonia com panelões de feijoada, granulados coloridos, galinhas, codornas. Tudo isso regado a chope, caldo de cana e pastel de feira, bem gorduroso. Delícia.
É ou não é uma experiência sensorial transitar por corredores em meio a essa diversidade de sensações?! Num momento, me vi provando espetinhos de morangos com chocolate (comi só o chocolate, mas estava ótimo). No outro, enquanto esperava, filei um pedaço de uma aula de confeitaria de bolos. Logo em seguida, me peguei fazendo perguntas tão específicas a uma vendedora que me surpreendi com as respostas afiadas. Parece que lá, dependendo do assunto, todo mundo sabe tudo e está sempre disposto a ajudar. Coisa de primeiro mundo...
A diversidade visual é outro ponto interessante. Tem gente de todas as idades, classes sociais, credos, raças. E todos convivendo em harmonia, devorando uma coxinha ou trocando idéia sobre o rolo de abrir massa, a melhor faca de peixe ou onde encontraria papel-manteiga. Não senti nenhum constrangimento em aparecer por lá praticamente como uma menina-zona-sul, como em outros lugares fora do eixo praia-Rebouças (não por mim, você sente a recepção), mas confesso que seria engraçado se encontrasse alguém conhecido.
Sair de lá carregada do que estava precisando (não fui fazer compras de Natal eu juro! E gastei pouco mais de R$ 100) e somente hora e meia depois de ser abduzida pelos encantos do Mercadão foi uma grata surpresa. No asfalto, via miragem, a roupa colando, uma água geladinha a meio real. E, para fechar, uma linha amarela tranqüila sob um céu azul inacreditável. Recomendo.
Tinha música? Forró Pe de Serra, Calypso ou o bom Zeca Pagodinho?