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A doença do início do milênio | 25 de janeiro de 2007

Não consegui descobrir ainda o que faz uma pessoa puxar papo com a outra no meio de uma livraria, dentro de um centro cultural, no início da noite de uma terça-feira rançosa do verão carioca. Quer dizer, no fundo, entendo perfeitamente, mas é interessante como ainda não posso garantir que se tratou de cara de pau mesmo (será que existem pessoas que se despencam até centros culturais para se enturmar com estranhos?! É alto padrão de qualidade demais para essa juventude de hoje...) ou de carência.

A cena só ilustra de forma boba e talvez ingênua uma seqüência bem repetitiva do dia-a-dia de uma pessoa comum nos últimos tempos. Como eu, como você. E que demonstra que todos, à parte o fato de eu ser inocente de carteirinha, se tornaram mais carentes de uns anos para cá. Tão carentes que podem dar sustos, como o que uma pessoa abordada no meio do ambiente bucólico de uma livraria toma.

Não dá para creditar à Internet, ao msn, ao celular, ao computador totalmente, mas a culpa pode ser, em parte, da tecnologia maciça que aproxima e afasta as pessoas, num paradoxo curioso e já bastante discutido. Reparou como você se torna muitas vezes íntimo de uma pessoa que sequer viu na sua frente, com quem troca enfurecidos e-mails sobre sua intimidade, seus planos, seus problemas conjugais? Por que não sair com um amigo de tanto tempo para pedir conselhos, desabafar e esquecer a ressaca moral virtual do dia seguinte? O pior é se o encontro pessoal faz a relação perder a graça e rola uma ponta de arrependimento por cambiar idéias originais por pensamentos comuns – afinal, existe um tempo maior para a lapidação entre pensar e digitar e pensar e abrir a boca.

Desacreditadas em si mesmas, as pessoas seguem uma tendência de compreender as coisas como desejam. Bastam uma vírgula poética mal compreendida ou uma simpatia exagerada para a coisa tomar outra proporção. Da mesma forma, tomamos a compreensão descontextualizada como verdade absoluta. E vai tirar isso da cabeça de uma pessoa descrente, com um quê deprimido e pessimista e que, ainda por cima, vive no seu “own private Idaho”...

A verdade é que é fácil apostar numa relação (inclusive e, talvez, principalmente de amizade) em frente a uma tela, que pode ser colocada de lado quando o telefone toca, alguém chama, a sede aperta. É moleza levar algo assim, em que a doação se dá quando não há nada mais o que resolver, o comprometimento é necessário quando todo o estresse passou, a cabeça esfriou. Mas que tipo de combinação, de acordo, de pacto é este, que nenhuma das partes está efetivamente ali, empenhada em fazer o seu?!? Pode ser que a carência também esteja aí. Atirando para todos os lados, a chance de um monitorzinho aceso na hora certa existe. E depois?

seta Nina Mansur

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