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Começar de novo | 08 de janeiro de 2007

Pode chamar de crise, de falta de inspiração, de cansaço mental. Mas a verdade é que encarar o começo do ano com as esperanças renovadas tem sido cada vez mais difícil. A rotina de passar a limpo a agenda e esvaziar a caixa de e-mails com mensagens antigas é uma chatice. Fora perceber que se está ficando velho de verdade, porque no ano passado não foi assim, tinha mais disposição para essas tarefas que tomam um tempão etc, etc, etc.

Só que 2007 deu as caras para mim de uma maneira terrível, que tira toda a sua disposição de recomeçar. Acho que para todos os cariocas preocupados em valorizar a cidade, o ano pintou desta forma. Foi com muita revolta que acompanhei e discuti os ataques terroristas dos últimos dias de dezembro. Desculpem, mas só a palavra terror descreve a ação de um miserável que resolve, por exemplo, colocar fogo em um ônibus cheio de gente que nada tem a ver com aquilo, que deu o azar de estar no lugar errado na hora errada.

Mas sabe o que é pior? Infelizmente, nesse quesito, nenhum dos cariocas apaixonados pela cidade e com certo senso crítico pode apitar. Quer dizer, até poderia (escolhendo os representantes certos), mas o desgoverno já vem de tão longa, blá-blá-blá, que agora não dá mais para voltar atrás. Não vou parar para essa discussão agora, mas o que tem me desanimado é que culpar os políticos sujos, incompetentes, ladrões e despreparados é, também, uma forma de tirar o corpo fora no caos da cidade. O carioca tem sua parcela de culpa pelo lixo em que estamos vivendo.

Nem lembro mais a última vez que vi um carro respeitando um sinal de trânsito ou que atravessei a rua sem olhar para os dois lados, mesmo que a preferencial fosse minha, do pedestre. Num sinal ali na lagoa, em frente ao Clube Piraquê, já presenciei dois atropelamentos e soube de outros dois, praticados por motociclistas homicidas (e suicidas), que andam ziguezagueando entre os carros numa nervosia sem precedentes. Está com pressa, sai mais cedo! Aliás, essa falta de pontualidade é outra coisa que me tira do sério...

A já-foi-tarde árvore de Natal da lagoa está sendo desmontada, mas o que se vê ali na região, após o último fim de semana de espetáculo, é quase como andar no meio do aterro de Gramacho: lixo por toda parte, inclusive no espelho d’água. Saco de pipoca, sacos plásticos, latas de bebida, garrafas de vidro, copos, papéis, papelão. Lixo, porcaria, entulho deixado por uma multidão sem educação e sem noções de civilidade. Isso sem falar no urinódromo em que transformam os lugares por onde passam. Será que em casa essas pessoas se comportam assim? Será que elas urinam nos muros de seus condomínios, no portão dos vizinhos, nas suas áreas de serviço?

Tirando o problema do trânsito e da sujeira, na minha opinião, falta de exemplo e impunidade, e o espaço público?!? O que faz um desqualificado sair cobrando no mínimo R$ 5 – e adiantados! – por vagas? O que dá direito a um infeliz desses me cobrar por algo que já está pago (com dificuldade) no pacote ridículo de impostos que cumpro todo ano, todo mês, toda semana, todo dia? Os cariocas idiotas (como eu) é que continuam ali, abaixando a cabeça para quem faz merda e se acha no direito de reclamar, com medo de peitar e tomar um tiro na cabeça.

E enquanto isso, enquanto tenho medo de apanhar na rua, todo mundo continua achando isso aqui lindo. E continua andando na contramão, dando propina para policial, jogando lata de refrigerante e papel de bala pela janela do ônibus, tudo muito natural...

seta Nina Mansur

seta Comentários Enviados
Kamille em 01 de fevereiro de 2007

Mas a gente tem que começar mudando, ou tentando, pelo menos. O meu irmão, por exemplo, não pára em vaga com flanelinha. Só vaga certa ou estacionamento. Se recusa a dar dinheiro pra esses caras. E acho que ele tá certo...


Rodrigo Levino em 11 de janeiro de 2007

Sobre a Lagoa, tá parecendo os canais de Recife, cantados por Fabio Trummer, do Eddie: saco plástico de tods as cores, garrafas boiam pela fedentina, cheiro forte caracteriza, Beberibe como de costume.

Sobre o restante: cada vez mais penso que a opinião de Oscar Wilde sobre os EUA se aplicam ao Brasil. "A América é o único país do mundo que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização".


Godo em 10 de janeiro de 2007

Melhor que mudar o ano, que muda anualmente, é mudar nossa cabeça de tempos em tempos.


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