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Descobertas | 27 de março de 2007

Laboratório de Química, nem sei se ainda existe, era um jogo que vivia nas minhas listas de presentes de aniversário, natal etc. Quer dizer, não sei se realmente chegava a pedi-lo – e se realmente era um jogo –, mas fazer experimentos, como os supervisionados no colégio por um professor estilo maluquinho, povoava meu imaginário. Recentemente, descobri uma diversão parecida, só que de adulto: cozinhar.

Nunca fui afeita a isso e, sinceramente, nunca despertou meu interesse. Sempre achei mais interessante comer. E fora que meter a mão na massa, depois me dei conta, dá um trabalho absurdo. E, claro, um grande prazer, em vários sentidos, que pode compensar.
A aventura de se lançar em campo começa numa ida ao mercado, em busca de ingredientes. Antes disso, o trabalho começa com o desejo. O que desejo hoje? O que gostaria de ver se transformando em algo apetitoso, cheiroso, gostoso? Passado este estágio difícil, é mãos à obra mesmo.

Quando o desejo aponta para o peixe, haja saco para ficar esperando o peixeiro tirar escamas, por exemplo. Mas como não gosto de levar para casa animais inteiros e mortos poucas horas antes, fico com o filé, rosado, texturizado, pulsante. Ou ainda com lulas, que demoram séculos para serem limpas – e soltam aquela tinta, que me faz viajar em frente ao balcão gelado. Ou ainda polvos, graúdos e suculentos, desde que tenham muitas ventosas e tentáculos intactos.

E estamos apenas no início do processo. Em casa, separo as folhas, deixo de molho com vinagre, ligo o forno para assar tomates, tiro temperos, especiarias, o grande azeite extra-virgem do armário. E, quando percebo, já se foram duas horas, duas horas e meia. E ainda vou calculando quanto tempo falta para um prato ficar pronto, para a pele do tomate descolar, para o refogado chegar no ponto, o suflê atingir o ponto, crocante por fora, desmanchando por dentro. Além de químicas, essas reações são matemáticas do tempo.

O laboratório de química aparece quando, como se fosse uma criança de oito anos, imagino a pimenta dando gosto à carne, vejo o açafrão tingir tudo em volta de amarelo, me espanto com a clara em neve, que dobra de tamanho em minutos... O brilho nos olhos é o da descoberta – ou ainda o da vitória, ao ver que aquela mistura, aquele concentrado de ingredientes de diversos tipos tomou forma, ganhou cor e se tornou algo comestível e saboroso. Impressionar alguém, muito mais do que alimentar, é também uma sensação bacana.

Se der errado, como o feijãozinho do chumaço de algodão que nunca vai adiante, o jeito é partir para outra, sem decepções. E, quem sabe, refazer o processo à exaustão, como se dali fosse surgir o próximo Nobel da Química.

seta Nina Mansur

seta Comentários Enviados
Pedro em 06 de abril de 2007

É. Terapia e tanto, esse negócio de cozinha. Madrugada, às vezes, sozinho. Som. Um vinho. E quando vejo tem 'jantar' saindo às duas. Sobre as impressões, há um livro de receitas que me inspirou no início das aventuras: 'Como Impressionar Sem Fazer Esforço'. Bacaninha. Sobre reações químicas, você conhece aqueles da série 'O Que Einstein Disse a Seu Cozinheiro'? Ah, isso não tem fim... Bj


Chauncey em 30 de março de 2007

Sortudo daquele que pode experimentar essa lula deliciosa...


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