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Viemos dos portugueses. E pronto | 01 de março de 2007

Memória afetiva é o que senti ao desembarcar em Portugal, há coisa de duas semanas. Nunca havia estado lá e fui munida de muitas dicas e alguns alertas. Sabia que era um povo literal demais, havia ouvido que eram toscos e que, com a entrada na Comunidade Européia, tinham dado um grande salto no caminho da modernidade. Mas o que, de fato, seria esse salto? Como entrar de cabeça na modernidade? É uma outra dimensão que se abre e estão lá nossos antepassados a saltar naquele escuro?

De uma forma ou de outra, mesmo sem os conhecer, me reconheci ali. Seja no salto, seja na cordialidade quase ultrapassada e na necessidade de ser manter distância. Nada de intimidades que não existem. Mas olhar aquilo tudo, se ver em muitas coisas e perceber inúmeras heranças é uma sensação bem reconfortante.

Em última análise, não podemos negar que não viemos dos portugueses, seria tanta heresia quanto afirmar – olhando para eles – que os homens não vieram dos macacos. Embora esta travessia tenha sido feita há séculos, a essência é a mesma.

Para começar, e talvez seja o ponto crucial do legado, os portugueses têm grande desapego à memória, o que parece ser um paradoxo deste meu comentário. Eles se desprendem com tanta facilidade da sua história que fazem como nós: botam abaixo o que não serve naquele momento para reconstruir algo que possa ser mais útil. Aí entendi o motivo pela qual a Avenida Rio Branco não se parece com a Rue de Rivoli, por exemplo. Afinal, qual seria a razão de se manter tanta quinquilharia? Por que ter um prédio rebuscado, difícil de limpar e com poucos inquilinos se é possível empilhar famílias com cozinhas minúsculas em cima de carros populares?

O tratamento dispensado aos velhos lusitanos (perdão, devo dizer a terceira idade) também pode se enquadrar nessa necessidade de se desfazer das peças de museu para viver única e exclusivamente no presente. Com a entrada na CE, muitos benefícios foram cortados e aqueles simpáticos senhores rechonchudos, baixinhos e bonachões (e seu respectivo feminino, com o upgrade do dom do fogão) agora passam pelos orelhões a ver se alguma moeda, por acaso, resta despercebida no recipiente do troco. O tratamento dentário deve ter sido dispensado há tempos; os idosos têm dentes tão ruins e esburacados como os do pessoal do Leste Europeu, que só recentemente começou a ter acesso decente aos consultórios dos dentistas.

Apesar do descaso de alguns – onde não tem descaso e desleixo nesse mundo? –, o que se vê é uma vontade imensa de fazer você se sentir em casa, como se alguns séculos, um oceano e três horas de fuso-horário não fizessem a menor diferença. E a começar pela comida e pela bebida, eles estão bem e no caminho certo.

seta Nina Mansur

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